Um ano sem Guga

Guga (GAP)

O chimpanzé macho Guga nasceu em um criadouro comercial no Paraná, no Brasil, em 1999. Quando ainda era bebê, foi “adotado” por uma família humana e a inspirou a dar início a um trabalho que, ao longo de 20 anos, ajudou a resgatar mais de uma centena de chimpanzés vítimas de maus tratos e a perpetuar as ideias do Projeto GAP no Brasil e no mundo.

Guga foi o primeiro chimpanzé e fundador do Santuário de Grandes Primatas de Sorocaba, afiliado ao Projeto GAP e o maior da América Latina. Neste mesmo santuário, ele deu adeus a seus amigos chimpanzés e humanos há um ano, no dia 27 de maio de 2018, depois de lutar durante meses contra um câncer no pâncreas.

Sua inteligência e personalidade marcantes nunca serão esquecidas e para tal o santuário montou o Memorial do Guga, uma área na qual pinturas criadas pelo artista plástico Ernandes Bacvagio demonstram todas as suas habilidades. Guga folheava revistas, brincava de fazer comidinha com o que encontrava na natureza a sua volta, aprendeu a contar até 4, escovava os dentes, admirava-se no espelho… Foi um chimpanzé muito especial!

Descanse em paz, querido Guga!

O dilema de Dória – “Zoológico: fechar ou privatizar?”

Divulgação – Projeto GAP

Um anúncio do Governador de São Paulo, João Dória, publicado dias atrás, indica que um projeto está sendo montado para privatizar o Jardim Botânico, que tem um déficit anual de quatro milhões de reais, juntando ao Zoológico de São Paulo e ao Parque Simba Safari, que operam juntos e geram um pequeno superavit.

Do ponto de vista econômico pode ser uma iniciativa inteligente para se livrar de uma atividade que dá prejuízo e juntar com outra que dá um pequeno lucro, que são os dois zoológicos. Porém, tudo na vida não se mede com o máximo de “lucros e perdas.” No zoológico existem centenas de vidas inocentes, que sofrem um cativeiro insano para diversão de pessoas que não se identificam com o sofrimento daqueles seres vivos, que têm direitos a ser preservados.

Se voltarmos os olhos para o exterior, veremos que a nova política hoje não é privatizar zoológicos, mas sim fechá-los. O Zoológico de Buenos Aires, um dos mais antigos do mundo, considerado tradicional, localizado em uma área nobre da cidade, está em vias de ser desativado. A mais emblemática das espécies cativas, Sandra, orangotango fêmea, está prestes a ser transferida para um Santuário dessa espécie na Flórida. O Zoológico de Mendoza, situado neste mesmo país irmão, está tecnicamente fechado e sua espécie mais emblemática, a chimpanzé Cecília, foi transferida para o nosso Santuário de Grandes Primatas em Sorocaba, por meio de um Habeas Corpus histórico concedido por uma Juíza Argentina.

Privatizar o cativeiro é jogar a vida e a liberdade de milhares de seres vivos nas mãos do lucro capitalista. Se era ruim em mãos públicas, será mil vezes pior em mãos da exploração privada.

Há mais de 10 anos, eu fiz uma carta ao Governador de São Paulo, na época de Geraldo Alckmin, solicitando o fechamento temporário do Zoológico de São Paulo, ante uma epidemia de morte de primatas de todas as espécies naquele Zoológico, até hoje nunca explicada claramente. A reação da Direção do Zoológico, muito possivelmente com a concordância do Governador, foi abrir um processo de Difamação contra a minha pessoa e o Projeto GAP – Grupo de Apoio aos Primatas, conhecido mundialmente, do qual eu era o Presidente na época e do qual atualmente sou Secretário Geral.

Esse processo ainda está em aberto; o zoológico perdeu em todas as instâncias, porém, usando a imensa variedade de recursos que a nossa Justiça oferece, o mantém aberto, agora nos Tribunais Superiores de Brasília, pensando que dessa forma irão evitar  que questionemos a existência daquele e de outros zoológicos, que, a esta altura da civilização humana, já deveriam estar extintos.

Eu e minha família mantemos em meu sítio em Sorocaba um Santuário de Grandes Primatas e de outras dezenas de espécies. Não temos orgulho por tê-lo, mas bem temos vergonha que, como seres humanos inteligentes, a única solução encontrada para salvar centenas de animais da exploração e da morte em nossas mãos foi encerrá-los em outro cativeiro, na qual estes inocentes não servem de troféu e divertimento de nossa raça.

A desativação de zoológicos é hoje reproduzida em todos os países e até em nosso país vários deles já estão sendo desativados para serem convertidos em parques de lazer para população, sem a exploração animal.

Os chimpanzés abrigados em Sorocaba vivem em recintos de milhares de metros quadrados, são livres dentro desse território, mas eles se sentem prisioneiros, como qualquer ser inteligente se sentiria nessas circunstâncias. Apesar de serem prisioneiros, eles rejeitam a exibição, se relacionam bem conosco, que os atendemos diariamente, porém, não suportam visitantes. Eles também sabem que são objetos de divertimento em mãos de seus captores.

A disputa não é Santuário versus Zoológico, ambos são cativeiros e não deveriam existir. A alternativa é LIBERDADE VERSUS ESCRAVIDÃO. Nenhum animal, não importa a complexidade de sua espécie, nasceu para viver cativo. Os Direitos Humanos não existem só para nós. Todos neste Planeta têm o direito de viver em liberdade na área natural mais apropriada a cada espécie.

Suprema Corte e animais não humanos: obscurantismo x modernidade

Foto: Pixabay

Como mostra a matéria da Folha de São Paulo intitulada “STF julga constitucional lei que assegura abate em cultos de matriz africana” (*), a nossa Corte Suprema ofereceu à sociedade  um triste  espetáculo de irracionalidades ao legalizar a extemporânea e hedionda prática de matança de inocentes em rituais religiosos. Primeiro, porque o STF oferece argumentações sem lastro ao afirmar, por exemplo, que “o abate nessas circunstâncias é feito sem crueldade” (???); e  que “a carne serve de alimento depois do culto” (**). Entretanto, o  pior equívoco desse discurso – que visa pretensamente à igualdade de direitos e à garantia da liberdade religiosa – é a pressuposição de que tal liberdade  não poder ser exercida sem matança o que, de forma totalmente  anacrônica, ratifica  o estatuto dos animais não humanos como propriedades ou objetos, a serviço da espécie Homo sapiens.

Segundo a matéria, o ministro Marco Aurélio destaca que, “a laicidade do estado não permite o menosprezo ou a supressão de rituais religiosos, especialmente no tocante a religiões minoritárias ou revestidas de profundo sentido histórico ou social, como as de matriz africana”. Todavia, cabe aqui a pergunta: como pode um estado laico permitir que seja desrespeitada a sua Carta Magna, bem como diversos outros diplomas legais que salvaguardam os animais de maus tratos – frutos de décadas de luta por um mundo mais justo para todos – em nome de uma irrestrita “liberdade religiosa”? Como pode esse estado laico dar passagem, ainda, à perpetuação da barbárie num momento histórico no qual abundam evidências científicas acerca da natureza senciente/consciente das vítimas de tal morticínio?

Racismo religioso????

Embora o STF negue tratamento privilegiado nesse caso, o que seria uma ofensa ao princípio da isonomia, o que esta em pauta é paradoxalmente isso, o privilégio. De acordo com a matéria, o ministro Fachin afirma que as religiões de matriz africana precisam de proteção especial do estado, por serem estigmatizadas devido à existência de um preconceito estrutural. Embora essa afirmação esteja corretíssima, a pergunta crucial é se essa proteção açambarca necessariamente o direito a práticas tipificadas como crimes. Lamentavelmente, como suposto “corolário” da negação de tal “direito”, alega-se racismo religioso.

Na matéria, o advogado Hédio Silva Júnior, falando em nome da União de Tendas da Umbanda e Candomblé do Brasil, reclama que “a vida da galinha da macumba vale mais do que as vidas de milhares de jovens negros que, segundo ele, não são objeto de comoção social. Entretanto, trata-se de uma falsa dicotomia, de uma pergunta enganosa que só pode desembocar em respostas equivocadas. Os vivissecionistas também são mestres em colocar pseudo dilemas entre a escolha de quem vive: um animal ou uma “criancinha”, como se esse fosse o cerne do problema. Muitos nativos da Ilha de Santa Catarina e do litoral catarinense também se insurgem contra a proibição da macabra farra do boi alegando perseguição contra a sua tradição cultural e outros argumentos espúrios.

Pão e circo

Uma galinha ou um jovem negro? Os jovens negros de periferias não serão empoderados por possuírem licenças para matar seres indefesos. Serão genuinamente empoderados quando tiverem acesso a boas escolas e tiverem perspectivas de vida, ao nascer, iguais às das demais classes sociais, sobretudo as que são hoje favorecidas por um processo social e histórico secular que promoveu a desigualdade e a injustiça.

Ainda na mesma matéria, o ministro Barroso assevera que não se trata de conceder privilégios, mas de assegurar os mesmos direitos (sic). Todavia, se num futuro próximo os tupinambás ou outros povos autóctones deste Brasil – também alvos permanentes de massacres étnicos e discriminações culturais – reivindicarem a legalização de sacrifícios humanos e outras práticas ancestrais, como o canibalismo, o que dirá o STF? Certamente se pronunciará pela proibição, alegando a não comensurabilidade/identidade/pertinência entre as práticas (humanos x “animais”).

Isso, contudo, só evidencia que o que está na mesa de discussão não é o racismo, mas outra forma de preconceito, o especismo. Para quem advoga o abolicionismo animal como parte da luta pela construção de um mundo melhor para tod@s, resta apenas concluir que, em vez de promover lutas que unificam diferentes grupos sociais em direção a um futuro comum mais justo, tanto os que advogam a chacina de seres indefesos, quanto o STF, brindam a todos com uma bela provisão de “pão e circo”.

É impressionante aquilatar como tem razão, lamentavelmente, o biólogo Richard Dawkins, em seu livro “The God Delusion”, quando defende a existência de um poder corruptor das religiões sobre o que é coerente e justo.

(*): https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2019/03/stf-julga-constitucional-lei-que-assegura-abate-em-cultos-de-matriz-africana.shtml;

(**): Já presenciei diversas vezes a exposição de cadáveres de animais, de diferentes espécies, apodrecendo a céu aberto em encruzilhadas, ou seja, em espaços públicos, acessíveis a crianças e pessoas que discordam dessas práticas.

 

Eu Rejeito

Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem.
Bertolt Brecht

Foto: Douglas Magno

A cena do rio de lama de rejeito de mineração e toxicidade a avaliar, arrastando tudo que estava no seu caminho, causou profunda tristeza e lamento de todos nós. A terra literalmente vomitou aquilo que não lhe pertencia e escancarou nossa incompetência para o mundo. Enquanto assistia ao noticiário, me perguntava quanto daquela lama me pertencia e o que esse desastre humano, ambiental e animal nos diz de nosso modo de viver.

Um dos princípios-chave da ecologia são os processos cíclicos. Na natureza há produção de resíduos, entretanto o que é resíduo para um organismo é alimento para o outro. Logo não há “lixão” no mundo natural, muito menos barragem para conter rejeitos. Entre nós, ao contrário, os processos são lineares. Extraímos um bem natural, aproveitamos parte, descartamos em algum lugar o que não nos interessa. Por onde passamos, seja na praia ou em uma festa, deixamos um rastro de lixos que serão recolhidos, varridos e amontoados em algum lugar. Quanto mais consumimos mais acelerado é o processo de retirada de recursos naturais. Nesse sentido temos parte nesse rejeito.

O complexo do Paraopeba, onde estava a barragem da Mina do córrego do Feijão, era responsável por 7% da produção de minério de ferro, principal produto da Vale, que também produz minério de manganês, carvão, níquel, cobre, cobalto e ouro. Os minerais, em geral, são utilizados nas estruturas de indústrias, edifícios, aviões, cabo elétrico, celular, carro, geladeira etc. Ou seja, o conforto que demandamos e do qual não abrimos mão exige a existência de mineradoras, e, consequentemente, a produção de rejeitos. Queremos computadores e equipamentos eletrônicos de “última geração”, mesmo sabendo que ao sair da loja já estará ultrapassado? Sim! Então, onde fica a “barragem” para tanto resíduo eletrônico?
Segundo dados da United Nations Evnironmente Programme (Unep), das Nações Unidas, até 90% desse lixo são despejados de qualquer jeito no continente africano sem nenhum critério ou respeito pelas pessoas ou pela natureza, pois custa mais barato que reciclar devidamente no mundo industrializado de onde se originam. Nesse sentido, temos parte nesse rejeito.

Em nossas casas entram, junto com as compras as sacolas plásticas, embalagens inúteis, objetos mil, latas, vidros etc. Grande parte não tem relação alguma com aquilo que, de fato, iremos consumir ou mesmo precisar. O que é possível fazer? Recusar, reaproveitar, reduzir o consumo, buscar produtos a granel, fazer compostagem, participar da coleta seletiva dando, no mínimo, a destinação correta para todo o resíduo gerado. Pode-se também não fazer nada e deixar que tudo vá para o aterro “sanitário” (onde houver) e lá deixar que despejem os rejeitos. Contudo, o aterro não é eterno nem tão sanitário. Tem vida útil curta, em torno de dez anos ou mais anos, conforme a tecnologia, o volume e a localização, e soluciona apenas em parte os problemas causados pelos excessos que produzimos. Nesse sentido temos parte nesse rejeito.

Precisamos nos alimentar, entretanto um terço da produção mundial de alimentos vai para o lixo em algum momento do processo de colheita até chegar à mesa. Isso equivale a 1,3 bilhão de toneladas por ano, o suficiente para alimentar todo o continente africano, segundo relatório das Nações Unidas (2011). Comprar aquilo que não irá consumir e que irá estragar antes de ir para o lixo me faz lembrar que temos parte nesse rejeito. Se a carne faz parte da minha alimentação, é preciso considerar que a produção de um quilo consome em torno de 16 mil litros de água, segundo a Water Footprint. Esse bife foi, um dia, um boi, mamífero de proximamente 520 quilos que comeu todos os dias. Ocupou espaço e, para isso, foi preciso desmatar para abrir pasto ou plantar soja para produzir ração. Quando vivo, arrotou gás metano, produziu, segundo o Departamento de Engenharia Agrícola da Universidade Federal de Viçosa, 30 quilos de fezes e urina por dia (21 kg de fezes e 9kg de urina) e viveu por volta de 18 meses. Se o rebanho bovino brasileiro está, segundo o Censo Agropecuário 2017 – IBGE, na casa de 214,9 milhões de cabeças, isso significa que são lançadas, diariamente, 6.447 bilhões de fezes em algum lugar do Brasil, no pasto ou na área de confinamento. Se ajuntássemos todo esse volume em um só lugar, precisaríamos de 537,25 represas/dia, como aquela que se rompeu em Brumadinho, somente para conter esse rejeito. Nesse sentido, é da nossa alçada, naquilo que servimos o nosso prato todos os dias, não fazer parte desse rejeito.

A tragédia de Brumadinho chega em um momento crítico para o meio ambiente quando, lamentavelmente, ouvimos ameaças de ampliar o desmatamento para monoculturas até na Amazônia; do Brasil sair do Acordo de Paris; de aprofundar a submissão da política ambiental às políticas da Agricultura; da indicação de nomes da bancada do Agronegócio para setores estratégicos em relação à preservação do meio ambiente; da abertura das reservas naturais e indígenas em favor da agricultura e da mineração; críticas às normas ambientais consideradas rigorosas demais e o fim das multas ao setor agrícola. A morte dos rios já denúncia este caminho suicida. A sensação beira ao desespero como ao ver um carro desgovernado na contramão da avenida. Em nome de todos e de tudo aquilo que deixou de existir em Brumadinho, pessoas, animais, árvores, rio e histórias, possamos despertar para ouvir os gemidos da natureza e nos colocarmos com urgência em sua defesa.