‘As pessoas não pensam que animais de fazenda têm sentimentos’, diz fundadora de santuário

Animais que vivem em fazendas, como bois, cabras, porcos e galinhas, são seres sencientes. Isso é, têm emoções e sentimentos. O que eles sentem vai além da dor física. São capazes, também, de sentir amor, afeto, medo, tristeza, de sofrer e de amar. E para protegê-los e conscientizar a sociedade sobre a senciência deles, Patrícia Fittipaldi fundou, há 11 anos, o Santuário das Fadas. Em entrevista exclusiva à ANDA, ela falou sobre os desafios para manter o local, que precisa de doações constantes, e revelou a bela missão que exerce diariamente cuidando de seres negligenciados e maltratados pela sociedade.

Foto: Patrícia Fittipaldi

ANDA: O santuário foi fundado quando e quantos animais atualmente vivem nele?

Patricia Fittipaldi: Foi fundado em 2008, temos aproximadamente 200 animais.

ANDA: Animais de que espécies vivem no santuário?

Patricia Fittipaldi: cães, gatos, aves, equinos, caprinos, suínos, bovinos, roedores e jabutis.

ANDA: O que te motivou a criar o santuário?

Patricia Fittipaldi: Desde criança sempre fui protetora de animais. Enquanto morava na cidade do Rio de Janeiro, eu resgatava muitos cães e gatos, mas com o tempo fui resgatando também animais como bodes e galinhas, e com isso foi ficando bem complicado morar na cidade e continuar resgatando esse tipo de animal. Então, me mudei para a Região Serrana, inicialmente fui para Itaipava. E eu quis montar um santuário principalmente de animais de fazenda porque são animais que não têm muitos abrigos e nem santuários para eles. O que têm mais são abrigos de cães e gatos. São poucas pessoas que fazem esse trabalho aqui no Rio de Janeiro, a gente praticamente faz um trabalho pioneiro.

E foi o amor a todas as espécies que me motivou. E com essa demanda de animais precisando de ajuda, principalmente animais de fazenda, que são animais que não costumam ser vistos com bons olhos, porque as pessoas gostam muito de cão e gato, não pensam que animais de fazenda sofrem, têm sentimentos, então foi isso que me motivou. Aí mudei para a Região Serrana, fiquei 10 anos em Itaipava e há quase dois anos a gente se mudou para Teresópolis, que é interior do Rio de Janeiro também.

Foto: Patrícia Fittipaldi

ANDA: Você diz que as pessoas não pensam que os animais de fazenda sofrem e têm sentimentos. Você poderia contar uma história ou momento presenciado por você que demonstre o sofrimento e/ou o amor e a gratidão que estes animais sentem?

Patricia Fittipaldi: A maioria dos animais chegam aqui com desconfiança do ser humano, porque viveu muitas situações de maus-tratos. Os nossos equinos foram todos retirados de carroceiros, apanhavam muito, viviam trabalhando até a exaustão. Então, é muito legal observar a mudança deles e nem demora tanto, uma ou duas semanas aqui já no santuário, pela energia, pelo cuidado e pelo amor que a gente tem com esses animais, eles já demonstram muita gratidão.

Têm animais que chegam aqui muito agressivos, algumas vacas, alguns bois que participaram até de vaquejada, e com uma, duas semanas, nos casos mais graves um mês, esses animais mudam o comportamento completamente. Eles sentem, não só pela energia da gente com eles, mas também pelo cuidado e pelo amor que a gente passa para eles. Então, todos os animais que chegaram aqui chegaram dessa forma. Suínos que iriam ser mortos, eram criados em lugares imundos, em situação precária, não recebiam carinho. A gente não podia chegar perto deles que eles já gritavam com medo de apanhar. E com uma semana você percebe que eles já chegam perto da gente para pedir carinho, vão se aproximando devagarinho, até acontecer aquela entrega total de confiança.

Foto: Patrícia Fittipaldi

ANDA: O que você acredita que falta para que as pessoas percebam, que no que se refere a sentimentos, medo, dor, sofrimento, que os animais de fazenda são iguais aos cães e gatos?

Patricia Fittipaldi: Eu acredito que para as pessoas, principalmente para as que vivem na cidade, como não têm contato com esses animais e os enxergam como alimento, falta conviver com esses seres. Por isso em breve a gente quer fazer um programa de visitação monitorada no santuário, que dá a oportunidade das pessoas conhecerem e terem um momento de perto com esses animais. A gente em breve vai realizar isso para que as pessoas possam, cada vez mais, ter mais consciência sobre o fato de que esses animais também sentem, têm sentimentos, ficam felizes e tristes. Então, para mim, o que falta mesmo para as pessoas perceberem, no que se refere a sentimento, medo, dor sofrimento, é a vivencia com esses animais. Para as pessoas da cidade é muito difícil.

Nós que temos santuários, acho importante fazermos esse planejamento das visitações monitoradas, que não podem também ser diárias ou com muita frequência para não estressar os animais. Porque eles têm contato com a gente que está na lida com eles todo dia, mas muitos deles ainda têm receio quando se deparam com seres humanos diferentes, outros até gostam, então é uma coisa que a gente vai em breve fazer, mas também para não estressar os animais vai ser um projeto quinzenal ou mensal. Mas quando as pessoas têm contato com esses animais, elas começam a perceber que eles pedem carinho, que eles têm emoções.

Foto: Patrícia Fittipaldi

ANDA: Você disse que fundou o santuário em 2008. De lá pra cá, nestes onze anos com o santuário, e também considerando o período no qual você já estava envolvida na causa animal, mesmo antes da criação do santuário, você notou alguma evolução na sociedade em relação aos animais? Os cães e gatos e, principalmente, os animais de fazenda, têm sido vistos de melhor forma pelos humanos, embora grande parte da população ainda seja omissa e até cruel com eles?

Patricia Fittipaldi: Eu notei muita mudança. Porque mesmo na época que eu não tinha o santuário, que eu só era envolvida com ativismo, era uma coisa muito difícil as pessoas se comoverem com animais de grande porte, animais de fazenda. E hoje em dia, mesmo as pessoas que se alimentam de carne têm aquela hipocrisia, comem a carne mas ficam com pena de ver as situações, e isso já é um despertar. E muitas delas, até por causa desse despertar, viram vegetarianas e veganas.

E entre os animais de fazenda, acho que as pessoas se sensibilizam mais com os equinos. Porque elas encontram muitos equinos na própria cidade, puxando carroça, animais desmaiando de cansaço, então são animais de fazenda, mas que também são encontrados na cidade. Portanto, eu vejo uma grande evolução em relação ao despertar das pessoas com os animais de fazenda, mas ainda tem muita coisa para evoluir.

Foto: Patrícia Fittipaldi

ANDA: E como você faz para sustentar todos estes animais do santuário? 

Patricia Fittipaldi: Infelizmente, a gente vive literalmente de doação e são doações eventuais, o que é uma coisa incerta. Todo mês é uma loucura, a gente implorando ajuda na internet, nas mídias sociais. Não temos patrocínio fixo de empresa ou pessoa e o gasto é altíssimo, com ração, medicamentos, funcionários, com os recintos, que têm que ampliar, modificar, melhorar, criar mais recintos. É muito difícil. A gente gostaria muito de ter um patrocínio pelo menos para rações, um patrocínio mensal. Mas, infelizmente, a gente até hoje não conseguiu, então vivemos literalmente de doação.

* Por Mariana Dandara


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‘Direitos animais andam de mãos dadas com direitos humanos’, defende o coletivo Feminivegan

Com o objetivo de unir as lutas pelos direitos dos animais e das mulheres, e também abordar temas relativos aos trabalhadores, surgiu o coletivo Feminivegan. Através das redes sociais, o grupo dissemina informações para conscientizar a população. Para explicar melhor a proposta do Feminivegan, o coletivo deu uma entrevista exclusiva à ANDA. Confira abaixo.

Foto: Reprodução / Instagram / @feminivegan

ANDA: Há quanto tempo o coletivo existe e como surgiu a ideia de criá-lo?

Feminivegan: O coletivo existe desde 11 de março de 2018. A ideia surgiu depois que Ana Motha sentiu a necessidade de trazer mulheres feministas para o veganismo, de mostrar para as pessoas que é possível, que é acessível e que pessoas periféricas podem ser veganas. O veganismo sempre foi um movimento político, sempre teve um viés anticapitalista. Mas com o passar dos anos, com o avanço do liberalismo, de ONGs neoliberais bem-estaristas, foi perdendo a essência e se tornando uma dieta da moda.

ANDA: Há uma relação entre os direitos dos animais e das mulheres que levou a junção das duas causas no coletivo? Se sim, qual?

Feminivegan: Sim, o fato de que toda a indústria que explora os corpos dos animais é sustentada pelo corpo de uma fêmea não humana, com inseminações artificiais, por exemplo. Como nossa capacidade reprodutiva é controlada, como no caso das mulheres que trabalham no setor frigorífico, que muitas vezes têm gestações controladas, para não atrapalhar a produção. Para nós, os direitos animais andam de mãos dadas com os direitos humanos, ou derrubamos o capitalismo e libertamos todos, ou nada mudará.

ANDA: Quantas pessoas integram o feminivegan? Vocês costumam se reunir para debater temas relativos ao coletivo?

Feminivegan: Atualmente, não temos um número certo. Passamos por uma “reforma”, e agora, estamos em fase de formação de novas integrantes, que ainda não são consideradas membros do Femini. No total, são 69 mulheres no grupo de formação. Sim, nos reunimos e realizamos oficinas de militância.

Foto: Reprodução / Instagram / @feminivegan

ANDA: O que é o “ecofeminismo”?

Feminivegan: O Ecofeminismo é a quinta corrente apontada por Karen Warren, no final da década de 80 do século XX, ou o que ela chama de feminista transformativa, enfatizando as diferentes conexões entre a opressão exercida pelos homens sobre a natureza (naturismo) e a opressão exercida pelos homens sobre as mulheres (machismo).

Referência: A perspectiva ecoanimalista feminista antiespecista, Sônia Teresinha Felipe.

ANDA: O trabalho desenvolvido pelo coletivo nas redes sociais tem sido bem aceito?

Feminivegan: Sim, recebemos muitas mensagens de apoio e de interesse em participar do coletivo.

ANDA: Quais temas são debatidos pelo coletivo no Instagram?

Feminivegan: Direitos animais, direitos das mulheres e da classe trabalhadora.

ANDA: Além das redes sociais, vocês atuam de alguma outra forma?

Feminivegan: Passamos por uma “reforma” para que isso aconteça. Desde a criação do coletivo, nossa intenção era levar o veganismo para as ruas, para as periferias. Agora, com tudo resolvido, pretendemos realizar trabalhos voluntários em escolas e com pessoas em situação de rua.

Foto: Reprodução / Instagram / @feminivegan

ANDA: Como vocês se sentem estando à frente deste projeto?

Feminivegan: Nos sentimos felizes, fazendo o que muitas mulheres fortes fizeram no passado, mas que não tiveram tanto espaço. Esperamos fazer a diferença, sair do discurso e mudar a vida de muitas pessoas.

ANDA: De que forma um coletivo que une os direitos das mulheres aos dos animais em uma luta única traz benefícios para a sociedade?

Feminivegan: O Femini além de defender os direitos dos animais e das mulheres, é anticapitalista. Acreditamos que libertar animais não humanos, sem uma mudança no sistema não resolve os problemas do mundo. Atualmente, temos um governo amparado pela bancada ruralista, que além de explorar animais humanos e não humanos, nos envenena dia a dia com milhares de agrotóxicos, por exemplo. Ou seja, libertar animais considerados de produção, sem libertar os trabalhadores, sem libertar humanos, não muda nada. Por isso, lutamos por soberania alimentar para a classe trabalhadora, lutamos pelo direito das pessoas escolherem o que querem comer, mas sabendo de tudo que envolve aquele alimento. A classe trabalhadora conscientizada tem nas mãos o poder de libertar os animais, parando a produção dos frigoríficos, parando o transporte dos animais, etc. Esse é o nosso trabalho na sociedade, fazer as pessoas despertarem!

“O amor pelos animais humaniza as pessoas”, afirma o deputado David Miranda

A defesa pelos direitos animais é uma das bandeiras levantadas pelo deputado federal David Miranda (PSOL), que tem feito uso de sua visibilidade e influência para levar à frente pautas necessárias aos animais. Em uma entrevista exclusiva à ANDA, ele contou sobre sua relação com a causa animal, que, inclusive, o levou a iniciar uma transição para o vegetarianismo. Confira abaixo.

David Miranda (Foto: Reprodução / Facebook / David Miranda)

ANDA: Quando iniciou seu envolvimento com a proteção animal?

David Miranda: Quando eu era criança e morava na favela do Jacarezinho, teve início o meu envolvimento com a proteção animal, na época, conseguia, com ajuda de outras pessoas, comprar ração para animais de rua. Mas, atuando de forma mais concreta, foi há 14 anos que eu e meu marido começamos a resgatar animais abandonados e propor aos amigos que os adotassem.

ANDA: A ONG comandada por você e pelo seu marido foi fundada quando? O que levou vocês a terem uma entidade voltada para os animais?

David Miranda: Sou casado com o jornalista americano Glenn Greenwald e a ONG é comandada por ele – o Abrigo Hope, fundado em 2017. Tudo começou com uma experiência nova, no bairro do Alto da Boa Vista, onde morávamos e havia um local vazio. Ano passado, foi transferida para um sítio alugado em Maricá.

David Miranda com o marido Glenn Greenwald e os filhos (Foto: Reprodução / Facebook / David Miranda)

ANDA: Quantos animais são mantidos pela ONG atualmente e de que forma vocês captam recursos para sustentá-los?

David Miranda: No momento, são perto de 50 animais. Os fundos são organizados por doações na internet, como o sistema vaquinha online.

ANDA: O que devem fazer as pessoas interessadas em adotar animais resgatados pela ONG?

David Miranda: Podem entrar em contato diretamente via site ou redes sociais. A partir daí, são mantidas conversas e marcadas datas para equipes de voluntários levarem os animais até as pessoas que vão recebê-los.

ANDA: Você e seu marido têm dois filhos. O amor pelos animais é ensinado para eles?

David Miranda: Meus dois filhos, de 9 e 11 anos, adoram os 24 cachorros que temos em casa. Eles são ensinados a respeitá-los e amá-los. O que não falta à nossa família é amor aos animais. Lutar pelos direitos dos animais é um compromisso que assumimos juntos e que vai nos acompanhar por toda a vida.

David Miranda com o marido Glenn Greenwald, os filhos e cães da família (Foto: Reprodução / Facebook / David Miranda)

ANDA: Você acredita que ensinar as crianças a respeitar os animais é uma das formas de criar uma sociedade mais compassiva em relação a todos os seres vivos, inclusive os seres humanos?

David Miranda: Juntos, eu e meu marido, já resgatamos centenas de animais. Os nossos filhos sabem dessa nossa história de dedicação e carinho. O amor pelos animais humaniza as pessoas, é transformador. Assim, podemos ajudar a construir um mundo melhor.

ANDA: No seu trabalho na política, você já apresentou algum projeto de lei voltado para a causa animal ou pretende apresentar? Se sim, qual?

David Miranda: Sim. Assim que fui eleito vereador, o prefeito Crivella transformou por meio de um decreto a Secretaria de Defesa dos Animais em subsecretaria. Apresentei um projeto para tornar sem efeito este decreto e lutei muito para termos de volta a secretaria.

Filhos de David com um filhote de cachorro (Foto: Reprodução / Facebook / David Miranda)

ANDA: Você tem usado suas redes sociais para propagar mensagens e notícias de conscientização acerca da causa animal. Isso tem gerado algum retorno positivo que demonstre uma maior abertura das pessoas em prol dos animais?

David Miranda: Uso minhas redes sociais para criar mais consciência sobre os respeitos e a estrutura da vida animal. Faço muitas postagens para criticar os maus-tratos e encaminho denúncias quando recebo informações sobre animais que vêm sofrendo crueldades.

ANDA: Você é vegetariano/vegano ou pretende ser?

David Miranda: Estou num processo para me tornar vegetariano. Glenn, meu marido, é vegetariano, e temos educado nossos filhos para compreenderem que essa forma alimentar é melhor para os animais, para a saúde das pessoas e para o planeta.

Juristas publicam livro sobre evolução da legislação sobre saúde animal

Os juristas Thiago Pires Oliveira, mestre em Direito e especialista em Direito do Estado, e Luciano Rocha Santana, doutor em Filosofia Moral e Jurídica, são os autores do mais novo livro sobre Direito Animal. “Direito da Saúde Animal” é um livro que aprofunda a discussão sobre os problemas sociais e sanitários presentes na relação entre seres humanos e animais. E para trazer mais informações sobre a obra, um dos autores, Luciano Santana, concedeu entrevista exclusiva à ANDA. Confira abaixo.

ANDA: Como surgiu a ideia de escrever o livro?

Luciano Rocha Santana: De certo modo, este livro já vem sendo escrito ao longo de mais de duas décadas, quando pela primeira vez intuímos transformar o conceito de posse em guarda responsável. Já no início de 2017, conversávamos, eu e Thiago, sobre a existência de certa lacuna na doutrina jurídica pátria, no tocante aos estudos até então existentes, com o propósito de aprofundamento do Direito Animal enquanto ramo autônomo das Ciências Jurídicas. E considerando que a academia e o mercado editorial brasileiro precisavam desenvolver pesquisas que abordassem com rigor científico os reais problemas sociais e sanitários decorrentes da relação dos seres humanos com os outros animais, ocorreu-nos a ideia de propor uma leitura diferenciada da saúde animal enquanto objeto da Ciência do Direito, nascendo assim nossa concepção da obra que ora trazemos à apreciação do público leitor e, em especial, da vasta gama de profissionais e especialistas nos diversos campos do saber relacionados com a temática aqui tratada.

ANDA: De que forma o livro aborda a guarda responsável?

Luciano Rocha Santana: Considerando que a obra “Direito da Saúde Animal” realiza uma exposição crítica acerca dos marcos regulatórios da saúde dos animais domésticos no Brasil, à luz da evolução da legislação, doutrina e jurisprudência, sem descurar de uma leitura constitucional dos institutos jurídicos postos em evidência na referida normativa, buscamos adotar a premissa segundo a qual a instituição da guarda responsável de animais domésticos constitui uma autêntica política pública de efetivação do Direito da Saúde Animal a ser implementada pelo Estado brasileiro.

Deste modo, a obra faz uma abordagem inédita, no Direito brasileiro, tomando por base o ordenamento jurídico pátrio, dos diversos instrumentos que se acham à disposição do gestor público, dentre os quais sistematizamos alguns deles, a saber: registro público de animais de estimação, vacinação, esterilização, controle do comércio, estímulo à adoção e educação voltada para guarda responsável, como institutos jurídicos que visam a eficiente implementação da metodologia da prevenção ao abandono, em substituição à metodologia da captura e extermínio de animais em situação de rua.

ANDA: Qual a diferença entre as obrigações do Poder Público e de particulares no que se refere à guarda responsável?

Luciano Rocha Santana: Em essência, não há diferença, visto que o dever ético e jurídico de guarda responsável visa a proteção da dignidade dos animais, não mais tidos como simples coisas nem meros recursos naturais renováveis, tampouco como uma espécie de recurso ambiental faunístico, senão, sobretudo, como seres sencientes e conscientes com valor inerente, ou seja, sujeitos-de-uma-vida.

Naturalmente, a interpretação normativa da justiça, denominada “visão da igualdade dos indivíduos”, de conformidade com a doutrina de Tom Regan, da qual deriva o direito a tratamento respeitoso atribuível a todos os sujeitos-de-uma-vida, sejam eles animais humanos ou não humanos, impõe, em contrapartida, um dever moral básico exigível de todos os agentes morais, que é o de respeitar os direitos concernentes à vida, à integridade e à liberdade destes seres.

Do mesmo modo que sucede com este dever universal de respeito e cuidado – exatamente como a luz solar ao passar por um prisma se decompõe em uma série infindável de radiações de amplo e variado espectro, se me permite esta metáfora – ao se expandir por uma série de obrigações morais e jurídicas, negativas e positivas, abstratas e concretas, conforme os costumes, as leis e as circunstâncias de tempo e lugar, assim também acontece com a incidência do instituto da guarda responsável, enquanto feixe imbricado e complexo de obrigações e direitos correlativos devidos aos animais, desde o âmbito dos macrossistemas denominados Estados, Comunidades de Estados, corporações transnacionais, nacionais e locais, até o nível mais elementar das microrrelações interespecíficas individuais de uma cidadania, por assim dizer, planetária, ecológica e animalista.

ANDA: Além da guarda responsável, quais outros temas são abordados no livro?

Luciano Rocha Santana: Inicialmente a obra apresenta a indagação sobre se o Direito da Saúde Animal é um novo ramo do Direito. Diante disto, faz-se um esboço da evolução histórica da legislação pertinente à saúde animal, bem como das políticas públicas de proteção da saúde animal e sua interface com a saúde humana. Posteriormente, aborda-se a saúde animal como preocupação do Direito em si, arguindo a respeito do tratamento conferido a esta temática por parte do Direito brasileiro, notadamente a disciplina jurídica da saúde dos animais de produção e a proteção jurídica da saúde dos animais de companhia, esta última confrontada com o Direito Comparado, contextualizando-o então com os ordenamentos jurídicos da Itália, Suíça, Argentina e Chile.

ANDA: De que forma você avalia a evolução da jurisprudência brasileira em relação aos animais?

Luciano Rocha Santana: Como um círculo moral e jurídico quase sempre em expansão, a jurisprudência pátria vem se aperfeiçoando em argumentação e se estendendo a temas cada vez mais diversificados, que vão do Direito Público ao Direito Privado, buscando neste processo histórico em espiral atender às demandas cada vez mais complexas e diversificadas existentes na realidade brasileira em que se distingue a relação de humanos com animais.

A título ilustrativo, aí se acham ações e decisões favoráveis ao tratamento dos animais como sujeitos de direito, a exemplo do Habeas Corpus da Chimpanzé Suíça, protagonizado por Dr. Heron Gordilho, aqui no Brasil, cujo precedente serviu de modelo para casos similares na Argentina e nos Estados Unidos da América.

ANDA: Que conquistas ainda faltam para os animais no meio jurídico?

Luciano Rocha Santana: O caminho é longo, os primeiros passos já foram dados, o futuro do Direito Animal está sendo construído agora. Se me fosse dado o dom da clarividência, diria que o próximo passo será o pleno reconhecimento por parte do sistema jurídico da condição dos animais enquanto seres sensíveis e, mais adiante, sujeitos-de-uma-vida, como de fato o são por direito próprio.

ANDA: Qual a importância de conseguir que o ordenamento jurídico considere os animais como sujeitos de direito?

Luciano Rocha Santana: Vivemos em uma época de transição e, neste sentido, mesmo persistindo a relação jurídica de propriedade entre o ser humano e o animal, o ordenamento jurídico disponível no Brasil – como pode ser visto no artigo 32 da lei federal nº 9.605/1998, e demais legislações que protegem os animais, em especial, a Constituição Federal de 1988, em seu artigo 225, o decreto-lei federal n° 24.645 de 1934 e a lei federal n° 5.197/1967 – já possibilita visualizar a redução de casos de crueldade e maus-tratos, além de funcionar como uma espécie de janela, permitindo lançar um jato de luz sobre este cenário até certo ponto ainda dantesco, no que tange à exploração institucionalizada dos animais.

Desta forma, quando o ordenamento jurídico permite vislumbrar os animais como sujeitos de direito, por meio destas leis que os protegem, ainda que de forma incipiente, isto implica antever uma revolução sem precedentes no dominante paradigma ético e jurídico fortemente antropocêntrico, cujas consequências são, aqui e agora, inimagináveis.

ANDA: Qual é a sua trajetória de trabalho com o meio ambiente e os direitos animais?

Luciano Rocha Santana: Na qualidade de membro do Ministério Público do Estado da Bahia (MPBA), ocupo o cargo de Primeiro Promotor de Justiça de Meio Ambiente da Comarca de Salvador, desde julho de 1996. Considerando que a missão do Ministério Público é defender a sociedade e o regime democrático para garantia da cidadania plena, resolvi aprofundar a leitura para melhor embasar a tomada de decisão em casos sobre danos ambientais e animalistas.

Logo no ano seguinte à minha assunção ao cargo, verifiquei que os conflitos envolvendo malefícios aos animais vinham surgindo com maior frequência, demostrando uma demanda pungente nesta área de conhecimento e atuação, ainda pouco discutida academicamente na década de noventa do século passado. Por isto, entendi que poderia melhor contribuir com a sociedade ao estudar este campo emergente da Ética e do Direito, ou seja, o Direito Animal, de modo a gradativamente ampliar as fronteiras da comunidade moral e dos direitos para além do humano.

A propósito, devo enumerar as seguintes funções e tarefas acadêmicas e profissionais: mestrado e doutorado no programa Passado e Presente dos Direitos Humanos, pelo Departamento de História do Direito e Filosofia Jurídica, Moral e Política da Faculdade de Direito da Universidade de Salamanca/Espanha (USAL/ES), publicação de livros e artigos filosóficos e jurídicos sobre Direito Ambiental e Animal, fundador do Núcleo de Pesquisa em Direito dos Animais, Meio Ambiente e Pós-modernidade (NIPEDA) da Universidade Federal da Bahia (UFBA), da Revista Brasileira de Direito Animal (RBDA), do Instituto Abolicionista Animal (IAA) e da Asociación Latinoamericana de Derecho Animal (ALDA), pesquisador do International Center for Animal Law and Policy (ICALP) da Universidade Autônoma de Barcelona/Espanha (UAB), presidente honorário da Asociación Human Animal Liberation Time (HALT), e atual presidente do IAA. Finalmente, tais encargos, repito, têm constituído meu itinerário de luta em defesa do meio ambiente ecologicamente equilibrado, da dignidade e saúde dos animais, desenvolvendo assim o debate filosófico e o embate jurídico acerca destes novos valores morais e jurídicos extensivos a nossos irmãos evolucionais.

Projeto criado nas redes sociais desmistifica ideia de que ser vegano é caro

Para desmitificar a ideia de que o veganismo é elitista e conscientizar as pessoas sobre a exploração e a crueldade animal, a vegana Caroline Soares decidiu criar um projeto. Ao fazer um grupo no Facebook e um perfil no Instagram, Caroline possibilitou que receitas feitas com ingredientes acessíveis financeiramente pudessem ser compartilhadas, assim como informações sobre o veganismo. Em entrevista exclusiva à ANDA, Caroline falou um pouco mais sobre o projeto. Confira abaixo.

Caroline Soares, idealizadora do projeto (Foto: Reprodução / Facebook / Caroline Soares)

ANDA: Quando e por que você decidiu iniciar este projeto para desmistificar a ideia de que o veganismo é elitista? O projeto teve início com o Instagram ou com o grupo no Facebook?

Caroline Soares: Sou periférica, moro na periferia de Guarulhos (SP) e sempre ouvi, e até por um tempo reproduzi, que veganismo era para a elite. Até que um dia não conseguia mais consumir derivados de animais. Sim, virei ovolacto por anos e nunca quis ser vegana, mas um dia aconteceu, não achava conteúdo periférico na web, aí criei o grupo e anos depois o Instagram @logoeu_veganapobre.

ANDA: Atualmente, o grupo conta com 87 mil membros. Há algum pré-requisito para que uma pessoa possa se tornar parte dele? Ele é aberto apenas a veganos ou também a pessoas interessadas em fazer a transição para o veganismo? 

Caroline Soares: O grupo é livre para todos, mas tem que respeitar as regras, nada de ingrediente de origem animal, marca que testa em animais, temos lista de produtos proibidos. Uma vez por ano abrimos enquete no grupo com os produtos que mais tem relação de caro ou difícil de achar, os membros votam e se acharem caro ele é banido e não pode ter receita com ele. Toda receita deve estar por escrito, facilitando a inclusão de pessoa que usam aplicativos que converte texto em áudio. Basicamente todos são aceitos, seja vegano, vegetariano, ovolacto vegetariano, onívoro.

Para manter o grupo, eu conto com o apoio dos moradores, que são muito importantes para garantir que as regras estão sendo seguidas e que tudo está funcionamento corretamente. São eles: Paty Souza, Nilton Sobral, Marco Antonio Silveira, Tatiane Pelissari, Tatiane David Maciel, Niki Chagas, Jorge Erick Abreu, Flávia Rolim de Moura e Vilma Alves.

Foto de comida vegana acessível publicada pelo projeto (Foto: Reprodução / Instagram / @logoeu_veganapobre)

ANDA: Que tipo de publicação é feita no grupo e no Instagram? Quantos seguidores você tem nesta rede social atualmente?

Caroline Soares: O grupo Veganos Pobres Brasil é única e exclusivamente para troca de receita, meu Instagram é sobre veganismo em geral, tem receita, indicação de produto, minha historia com o veganismo e a ONG que tenho em casa. É um blog pessoal, falo sobre a minha vivência do dia a dia vegano. No Instagram tem 19 mil, no meu Facebook 3.751 amigos, fora a página.

ANDA: Você acredita que seu projeto tem atraído a atenção das pessoas para o veganismo? 

Caroline Soares: Acredito muito, todo dia recebo mensagem de pessoas que antes de me encontrar achavam veganismo caro e difícil. Elas falam que estão em transição ou já veganizaram com a minha ajuda.

Hambúrguer de batata e cenoura (Foto: Reprodução / Instagram / @logoeu_veganapobre)

ANDA: Você acredita que ainda há muita desinformação, que muitas pessoas ainda acham que ser vegano é caro?

Caroline Soares: Sim, porque quando se pesquisa receita veganas e produtos, os valores são abusivos. Só que vegano não vive deles e tem os pequenos produtores veganos que não são vistos e vendem barato, ou ainda receitas que fazemos em casa.

ANDA: Qual a importância, para você, de conscientizar as pessoas sobre o veganismo não ser elitista? 

Caroline Soares: A importância é trazer o máximo de pessoas para o veganismo, assim alcançamos mais rápido a libertação animal.

Almôndegas de “carne” de soja (Foto: Reprodução / Instagram / @logoeu_veganapobre)

ANDA: Há quanto tempo você é vegana? O que te fez ter interesse pelo veganismo? 

Caroline Soares: Sem carne há 10 anos, e completei 4 anos agora como vegana. Conheci um ovolactovegetariano há anos e na época não tive a ideia da exploração animal. Eu era a pessoa que esfregava uma coxinha na cara dele e falava “nossa que frescura”.

Chamo isso de despertar, foi quando estava em casa jantando e simplesmente a carne não descia mais, e a partir do dia seguinte não comi carne. Confesso que fácil não foi. Tive recaídas? Sim, com os derivados (queijo), mas errar é humano.

A minha mãe e eu temos uma ONG com cerca de 20 animais resgatados de abandono e maus-tratos. O veganismo salvou a minha vida, eu mudei e me mudei todos os dias.