Aquilo que a escola também deve ensinar

Por Aleluia Heringer

Recebi, de uma conhecida, fotos e vídeos de sua filha em uma festa junina. São imagens daquilo que estava sendo oferecido como entretenimento para as crianças: rifa de calopsita, pescaria de saquinhos com peixes vivos, uma gaiola com os pintinhos e a galinha, ao sol, cercada de gente. Por fim, para quem quisesse registrar em fotos o dia feliz, um cavalo preso a uma carroça, com todas as amarras possíveis.

A pescaria de saquinhos com peixes vivos é uma prática cruel (Foto: Getty Images)

A esta hora a festa já acabou. Cada família tomou o seu rumo. Casa bichinho que ali estava, compondo, contra sua vontade, “a festa”, deve estar em algum canto improvisado de alguma casa. Fecha-se a cena, que não precisa de nomes ou de endereço.

O que chamou minha atenção nessa história é onde ela acontece: em uma escola! Lugar onde se ensinam coisas, que esperamos que sejam boas, exemplares e condizentes com aquilo que se espera hoje e amanhã das pessoas e da coletividade, na relação consigo, com os outros, com a natureza e com os animais. Quando crianças, mediadas pelos adultos e pela instituição escolar, são submetidas a uma proposta em que o animal é exposto, vendido, preso e rifado, apenas para distrair e divertir o “animal humano”, aí é bem problemático. Há um currículo oculto presente nessa situação. Reforçamos para a próxima geração que o animal está a nosso serviço, que não tem necessidades, não almeja a liberdade, não sente desconforto e que suporta tudo, afinal, nasceu para isso! Esse é o subtexto.

Alberto Schweitzer, prêmio Nobel da Paz de 1958, escreveu que “quando o homem aprender a respeitar até o menor ser da criação, seja animal ou vegetal, ninguém precisará ensiná-lo a amar seus semelhantes”. Schweitzer era de uma família rica na Alemanha, mas, como médico, foi viver entre os africanos das colônias francesas que necessitavam de cuidados e assistência médica. Ou seja, a compaixão estendida a todos os seres é um novo padrão de pensamento que precisa ser incutido em todos nós, adultos e crianças. Ao contrário, o padrão antropocêntrico e predatório que a humanidade traz consigo é o responsável pela extinção em curso de um milhão de espécies de animais e plantas, segundo o relatório publicado em maio deste ano pela Plataforma Intergovernamental de Políticas Científicas sobre Biodiversidade e Serviços de Ecossistema. A plataforma contou com 145 cientistas de 50 países e o relatório é considerado o mais extenso sobre perdas do meio ambiente.

O que isso tem a ver com essa tal Festa Junina? Muito! É o mesmo modo de operar e o mesmo modo de pensar. A única diferença é que a escola fez uma microdemonstração daquilo que a humanidade vem fazendo com os animais silvestres, com os rios, florestas e oceanos. A lógica da gaiola, da jaula, da não liberdade, da submissão aos interesses do outro, maior e mais forte. Definitivamente, precisamos passar para outra cena, fazer outras perguntas e inventar outras formas de entretenimento que não sejam à custa do outro.


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Eu Rejeito

Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem.
Bertolt Brecht

Foto: Douglas Magno

A cena do rio de lama de rejeito de mineração e toxicidade a avaliar, arrastando tudo que estava no seu caminho, causou profunda tristeza e lamento de todos nós. A terra literalmente vomitou aquilo que não lhe pertencia e escancarou nossa incompetência para o mundo. Enquanto assistia ao noticiário, me perguntava quanto daquela lama me pertencia e o que esse desastre humano, ambiental e animal nos diz de nosso modo de viver.

Um dos princípios-chave da ecologia são os processos cíclicos. Na natureza há produção de resíduos, entretanto o que é resíduo para um organismo é alimento para o outro. Logo não há “lixão” no mundo natural, muito menos barragem para conter rejeitos. Entre nós, ao contrário, os processos são lineares. Extraímos um bem natural, aproveitamos parte, descartamos em algum lugar o que não nos interessa. Por onde passamos, seja na praia ou em uma festa, deixamos um rastro de lixos que serão recolhidos, varridos e amontoados em algum lugar. Quanto mais consumimos mais acelerado é o processo de retirada de recursos naturais. Nesse sentido temos parte nesse rejeito.

O complexo do Paraopeba, onde estava a barragem da Mina do córrego do Feijão, era responsável por 7% da produção de minério de ferro, principal produto da Vale, que também produz minério de manganês, carvão, níquel, cobre, cobalto e ouro. Os minerais, em geral, são utilizados nas estruturas de indústrias, edifícios, aviões, cabo elétrico, celular, carro, geladeira etc. Ou seja, o conforto que demandamos e do qual não abrimos mão exige a existência de mineradoras, e, consequentemente, a produção de rejeitos. Queremos computadores e equipamentos eletrônicos de “última geração”, mesmo sabendo que ao sair da loja já estará ultrapassado? Sim! Então, onde fica a “barragem” para tanto resíduo eletrônico?
Segundo dados da United Nations Evnironmente Programme (Unep), das Nações Unidas, até 90% desse lixo são despejados de qualquer jeito no continente africano sem nenhum critério ou respeito pelas pessoas ou pela natureza, pois custa mais barato que reciclar devidamente no mundo industrializado de onde se originam. Nesse sentido, temos parte nesse rejeito.

Em nossas casas entram, junto com as compras as sacolas plásticas, embalagens inúteis, objetos mil, latas, vidros etc. Grande parte não tem relação alguma com aquilo que, de fato, iremos consumir ou mesmo precisar. O que é possível fazer? Recusar, reaproveitar, reduzir o consumo, buscar produtos a granel, fazer compostagem, participar da coleta seletiva dando, no mínimo, a destinação correta para todo o resíduo gerado. Pode-se também não fazer nada e deixar que tudo vá para o aterro “sanitário” (onde houver) e lá deixar que despejem os rejeitos. Contudo, o aterro não é eterno nem tão sanitário. Tem vida útil curta, em torno de dez anos ou mais anos, conforme a tecnologia, o volume e a localização, e soluciona apenas em parte os problemas causados pelos excessos que produzimos. Nesse sentido temos parte nesse rejeito.

Precisamos nos alimentar, entretanto um terço da produção mundial de alimentos vai para o lixo em algum momento do processo de colheita até chegar à mesa. Isso equivale a 1,3 bilhão de toneladas por ano, o suficiente para alimentar todo o continente africano, segundo relatório das Nações Unidas (2011). Comprar aquilo que não irá consumir e que irá estragar antes de ir para o lixo me faz lembrar que temos parte nesse rejeito. Se a carne faz parte da minha alimentação, é preciso considerar que a produção de um quilo consome em torno de 16 mil litros de água, segundo a Water Footprint. Esse bife foi, um dia, um boi, mamífero de proximamente 520 quilos que comeu todos os dias. Ocupou espaço e, para isso, foi preciso desmatar para abrir pasto ou plantar soja para produzir ração. Quando vivo, arrotou gás metano, produziu, segundo o Departamento de Engenharia Agrícola da Universidade Federal de Viçosa, 30 quilos de fezes e urina por dia (21 kg de fezes e 9kg de urina) e viveu por volta de 18 meses. Se o rebanho bovino brasileiro está, segundo o Censo Agropecuário 2017 – IBGE, na casa de 214,9 milhões de cabeças, isso significa que são lançadas, diariamente, 6.447 bilhões de fezes em algum lugar do Brasil, no pasto ou na área de confinamento. Se ajuntássemos todo esse volume em um só lugar, precisaríamos de 537,25 represas/dia, como aquela que se rompeu em Brumadinho, somente para conter esse rejeito. Nesse sentido, é da nossa alçada, naquilo que servimos o nosso prato todos os dias, não fazer parte desse rejeito.

A tragédia de Brumadinho chega em um momento crítico para o meio ambiente quando, lamentavelmente, ouvimos ameaças de ampliar o desmatamento para monoculturas até na Amazônia; do Brasil sair do Acordo de Paris; de aprofundar a submissão da política ambiental às políticas da Agricultura; da indicação de nomes da bancada do Agronegócio para setores estratégicos em relação à preservação do meio ambiente; da abertura das reservas naturais e indígenas em favor da agricultura e da mineração; críticas às normas ambientais consideradas rigorosas demais e o fim das multas ao setor agrícola. A morte dos rios já denúncia este caminho suicida. A sensação beira ao desespero como ao ver um carro desgovernado na contramão da avenida. Em nome de todos e de tudo aquilo que deixou de existir em Brumadinho, pessoas, animais, árvores, rio e histórias, possamos despertar para ouvir os gemidos da natureza e nos colocarmos com urgência em sua defesa.