A Legislação Protetiva Brasileira, há décadas, considera o animal como sujeito de direitos, e não como coisa

Tem sido ampla a propagação da ideia de que o animais não estariam sendo reconhecidos como criaturas sensíveis, capazes de experimentar sofrimento, em virtude do Código Civil que os teria reduzido a bens móveis, suscetíveis de movimento próprio, ou de remoção por força alheia.  Ao classificá-lo como “coisa”, nosso atual regime jurídico estaria impedindo que o animal venha a ser admitido como sujeito de direitos, dotado de personalidade própria, o que viria em detrimento da tutela jurídica de seus direitos.

Mas estaria correto afirmar que o atual regime jurídico considera como coisas os animais, que não seriam sujeitos de direitos? E decorreria dessa denominação sua impune submissão à crueldade?  Decerto que não.

Foto: Reprodução/UIPA

Toda a legislação especial que tutela os animais jamais os considerou como coisas, e sim como seres viventes, passíveis de sofrimento, sujeito a atos cruéis e detentores de direitos a serem defendidos em juízo.

O que existe é um mero descompasso entre o atual Código Civil Brasileiro e a legislação protetiva. Enquanto o primeiro,   ao ser reformado pela Lei Federal n° 10.406, de 10 de janeiro de 2002, conservou conceitos estabelecidos em 1916, a legislação protetiva já admite o animal como ser vivente, passível de sofrimento, desde 1924, data do surgimento do primeiro dispositivo protecionista (Decreto Federal nº 16.590, de 10 de setembro de 1924), além de reconhecê-lo como ser dotado de direitos, desde a edição do Decreto Federal nº 24.645, de 10 de julho de 1934 (art.3,§2º).

A reforma do referido código, segundo informações do Professor Miguel Reale, supervisor e coordenador dos trabalhos da Comissão Revisora e Elaboradora do Código Civil, teve por critério a manutenção das construções teóricas e conceitos  estabelecidos pelo Código Civil de 1916, preservando, sempre que possível, as suas disposições, em respeito a um patrimônio de pesquisas e de estudos de um universo de juristas (REALE, Miguel. Visão geral do Projeto de Código Civil. Revista dos Tribunais, n. 752, ano 87, jun. 1998, pp. 22-30).

Além desse critério, que norteou a conservação de antigas denominações,  o projeto originário do novo código foi elaborado em 1975,  data bem anterior a grandes conquistas legais como a edição da Constituição da República de 1988, que elevou a tutela dos animais ao patamar de norma constitucional e o surgimento da Lei Federal nº 9.605/98, que tipificou como crime os atos de abuso e de maus-tratos.

Reproduziu-se, portanto, as denominações do antigo diploma,  datado de 1916,  época em que inexistia qualquer  norma de cunho protecionista, de forma a  manter no Código Civil de 2002,  em seu artigo 82,  a mesma  classificação  prevista pelo artigo 47 do Código  de 1916, que declarava como móveis os bens  suscetíveis de movimento próprio.

Em 1924, oito anos após a edição do Código Civil de 1916, surgia o primeiro dispositivo a contemplar, ainda em norma não específica sobre o tema, medida que resguardava os animais de práticas que os submetessem a sofrimento.

Ao aprovar o Regulamento das Casas de Diversões Públicas, o Decreto Federal nº 16.590, de 10 de setembro de 1924, vedava, em seu artigo 5º, a concessão de licenças para “corridas de touros, garraios, novilhos, brigas de galos e canários e quaisquer outras diversões desse gênero que causem sofrimento aos animais.”

É de se notar que a legislação, em 1924, já reconhecia o animal como ser passível de sofrimento. E coisas não sofrem!

Foi apenas em 1934, quase duas décadas após a edição do Código Civil, que expediu-se a primeira norma protetiva específica, responsável pela instituição de dezenas de dispositivos em defesa dos animais. Era o Decreto Federal nº 24.645, de 10 de julho de 1934, que surgiu com força de lei federal por ter sido editado em período de excepcionalidade política, quando o Congresso Nacional estava fechado, fazendo com que o poder legiferante pertencesse ao Chefe do Executivo.

Por uma sucessão de equívocos, ainda há quem o repute como revogado.

Salvo no tocante às penas ali previstas, referido decreto, destaque-se, permanece em vigor até os dias atuais, uma vez que lei alguma o revogou, tácita ou expressamente.

Convém mencionar que o Decreto Federal nº 11, de 18 de janeiro de 1991, que teria revogado o Decreto Federal nº 24.645/34, foi tornado sem efeito   pelo Decreto nº 761, de 19 de fevereiro de 1993. E por sua natureza de lei, o decreto em comento só poderia ser revogado por lei, não bastando para tal mero decreto. Lei não pode ser revogada por decreto!

Conforme estudo publicado na Revista Brasileira de História (Rev. Bras. Hist. vol.37, nº 75, São Paulo, May/Aug.2017. Epub Aug. 17,2017), denominado “União Internacional Protetora dos Animais de São Paulo: práticas, discursos e representações de uma entidade nas primeiras décadas do século XX”, desenvolvido pela Professora  Natascha Stefania Carvalho de Ostos, do Departamento de História da UFMG, a criação da primeira lei protetiva brasileira só se deu após intensa luta política:

“Assim é que, buscando diálogo e aproximação com o governo, a União Internacional Protetora dos Animais alcançou, no ano de 1934, uma grande vitória no que concerne à criação de uma legislação protetora dos animais no Brasil. (…)  Em artigo publicado no jornal O Estado de S. Paulo, no dia 4 de maio de 1934, a UIPA dirigiu um memorial diretamente “Ao sr. Getúlio Vargas”, recordando ao mandatário que “quase todas as nações do globo possuem leis a respeito”, mas que no Brasil as normas “não são extensivas a todos os animais existentes no território nacional”. O texto continha um apanhado histórico da legislação de alguns países e informava que no caso do Brasil projetos de lei sobre o tema foram apresentados ao Congresso Nacional nos anos de 1912, 1914, 1922 e 1929, sem sucesso. O relato é valioso, pois mostra que a luta pela causa animal no país foi um processo contínuo de ação organizada com várias frentes de atuação, incluindo pressão junto aos legisladores, a ponto de a matéria chegar várias vezes ao Legislativo, o que demonstra a ressonância da questão animal em uma parcela da sociedade brasileira. (…). O artigo escrito pela UIPA no jornal paulista era uma interpelação pública dirigida ao presidente, “a União Internacional Protetora dos Animais, de S. Paulo, pede vênia para submeter à apreciação de v. exa. o projeto de lei incluso, rogando a v. exa. se digne transformá-lo em lei”. O texto completo do projeto foi transcrito no jornal e assinado por Affonso Vidal, um dos editores da revista Zoophilo Paulista. Para surpresa da entidade seus apelos surtiram efeito, pois no dia 10 de julho de 1934 Getúlio sancionou decreto que estabelecia “medidas de proteção aos animais”. O fato foi alardeado pela UIPA como uma vitória da própria agremiação, já que a lei aprovada seguia integralmente o texto criado no seio da entidade, tendo esta recebido “comunicação telegráfica diretamente do Palácio do Catete, firmada pelo Sr. Luiz Simões Lopes, informando haver o chefe do governo provisório assinado, ontem, o decreto que orientará, em toda a República, a proteção aos animais, e de cujo anteprojeto é autor o sr. Affonso Vidal, um dos esforçados diretores da referida sociedade protetora”.

Em oposição à afirmativa de que nossa legislação considera como coisa o animal estão as próprias expressões utilizadas pela maioria de seus dispositivos.

Em dezenas de incisos, o Decreto editado em 1934 vedava a continuidade da exploração, do abuso e da dominação cruel que vitimavam os animais, a ponto de ter sido comparado à Lei Áurea, que aboliu a escravatura no país. Com efeito, a nova lei resguardou de uma injusta situação seres passíveis de serem abusados, subjugados, dominados e maltratados, circunstância da qual uma “coisa” não pode ser objeto.

A toda evidência, atos de abuso, de crueldade e de maus-tratos, vedados pela lei editada em 1934, não podem vitimar coisas, que também não podem ser feridas ou mutiladas, como pune a Lei de Crimes Ambientais, em seu artigo 32.

Se animal, aliás, fosse mera coisa, aquele que o maltrata responderia por crime de dano, e não pelo crime de maus-tratos.

E a Constituição da República, em seu artigo 225, §1º, inciso VII, ao declarar que incumbe ao Poder Público vedar as práticas que submetam animal à crueldade, estaria admitindo que coisas sujeitam-se a condutas cruéis? Obviamente, não.

Toda a legislação especial que tutela os animais, vale repetir, jamais os considerou como coisas, e sim como seres viventes, passíveis de sofrimento, sujeitos a atos cruéis e detentores de direitos a serem defendidos em juízo.

Além de não ser coisa, o animal é tido pela legislação como sujeito de direitos sim, e há décadas.  Basta observar que em seu artigo 2º, §3º, o Decreto Federal nº 24.645/34 enuncia que “os animais serão assistidos em juízo pelos representantes do Ministério Público, seus substitutos legais e pelos membros das sociedades protetoras dos animais”.

Ora, só podem ser assistidos em juízo por seus substitutos legais aqueles que são dotados de direitos a serem tutelados em juízo. E apenas são dotados de direitos aqueles que podem ser tidos por sujeitos de direitos!

Passando longe de considerar os animais como coisas, ou como seres desprovidos de direitos, a legislação não precisa de reparos em suas denominações, sobretudo o Código Civil, que nem é o diploma qualificado para lhes conferir proteção legal, já que a tutela de seus direitos se faz por legislação especial, e não por meio do sistema de um código.

O que merece sofrer urgente revisão é a relação que se estabeleceu com os animais. Colocando-se no topo de uma hierarquia por ele mesmo engendrada, o homem se arroga no direito de submeter todas as demais espécies a uma vida de miséria e dor.

Dá-se à legislação protetiva dos animais as feições limitadas que interessam aos que os exploram, em completa desconsideração à sua condição de ser sensível e vulnerável.

O cerne da questão reside na efetividade da aplicação que se dá à lei, e não em sua nomenclatura, sobretudo quando se trata de um isolado dispositivo, que elaborado em 1916, acabou por não receber do legislador uma reformulação em 2002, ocasião da reforma do Código.

São numerosas as práticas que sujeitam a sofrimento os animais, situação que não decorre de nomenclatura  alguma. Já libertos, há décadas, da denominação de “coisa” e reconhecidos, pelo mesmo período de tempo, como sujeitos de direitos, os animais prosseguem condenados a uma existência repleta de dor. 

Explorados em fazendas, arenas, jaulas e laboratórios, animais de quaisquer espécies são expostos a procedimentos que, embora aterradores, são admitidos, sem clemência ou pudor

Em nome de uma suposta ciência, da ganância econômica e até do entretenimento público, consente-se na subjugação, no aprisionamento e na eliminação de suas vidas. Determina-se o martírio nos experimentos científicos, na criação industrial, nos rodeios e nas vaquejadas, além da impiedosa morte na caça e nos abatedouros.

Ainda que vedadas por um arcabouço de normas, as atividades cruéis seguem impunes, toleradas e até estimuladas pelo Poder Público, a quem cumpriria resguardá-los de quaisquer atos dessa natureza. Tais condutas não são analisadas à luz da legislação protetiva, que acaba restrita às ações dolosas não consentidas, que constituem uma minoria ínfima de casos isolados.

Interesses políticos e econômicos determinam a restrita eficácia conferida aos dispositivos legais. Desde que lucrativa, ou conveniente a um poderoso segmento, qualquer prática é consentida pelas autoridades. Essa é a realidade.

Quem dera uma simples alteração na nomenclatura legal fosse capaz de libertar os animais da exploração, do comércio e de toda sorte de atos cruéis que os vitimam! Quem dera fosse uma denominação do Código Civil a responsável pela miséria de suas vidas… por tanta dor, infortúnio e morte!

Quem dera!

VANICE TEIXEIRA ORLANDI é Advogada e Psicóloga, com especialização em Psicologia da Educação. Presidente da União Internacional Protetora dos Animais (UIPA), associação civil fundada em 1895, que instituiu o Movimento de Proteção ao Animal no Brasil.

Fonte: UIPA


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legumes

Empresas devem apoiar os veganos durante o ano inteiro

Janeiro costuma ser o mês em que experimentamos coisas novas e tentamos nos abster de velhos hábitos. Tudo começou com as resoluções de ano novo. Então as pessoas começaram a tentar o “Dry January”, renunciando ao álcool durante todo o mês para compensar o excesso de bebida no Natal.

legumes

Foto: Getty Images

O conceito evoluiu e agora temos o “Veganuary”, onde as pessoas se desafiam a aderir a uma dieta vegana durante todo o mês.

Enquanto você provavelmente já ouviu falar do Veganuary em anos anteriores, o movimento se tornou recentemente um negócio muito maior. Ele ganhou muito mais visibilidade este ano – principalmente porque tantas marcas decidiram repentinamente entrar na onda vegana.

Pizza Hut e McDonalds adicionaram opções veganas aos seus menus. A Marks and Spencer lançou a Plant Kitchen, sua linha de produtos veganos.

E, claro, a Gregg’s lançou o famoso rolo de salsicha vegano que dividiu o mundo nas redes sociais.

Alguns adoraram o produto. Outros (em especial, o apresentador de televisão Piers Morgan) ficaram indignados com sua existência – a decisão de Morgan de criticá-lo em rede nacional durante o horário nobre certamente ajudou a aumentar a demanda pelo rolo de salsicha. A polêmica valeu a pena para a Gregg’s: o preço de suas ações subiu quase um quarto desde o início do ano.

As principais marcas estão finalmente atendendo à crescente população vegana do Reino Unido, o que certamente é uma maravilha em termos de escolha do consumidor, mas por que demorou tanto? Ou, para inverter a questão, por que tantas marcas decidiram que 2019 será o ano do veganismo?

Você tem que se perguntar se, com tantas marcas de repente tentando gerar lucro com o Veganuary, isso se tornou simplesmente um exercício cínico de marketing, que reduz o veganismo a apenas outra tendência de consumo.

Afinal, o veganismo é muito mais do que apenas uma escolha alimentar. É um estilo de vida e um conjunto de crenças profundamente arraigadas. Olhe para a controvérsia em torno da cadeia de supermercados britânica Waitrose no ano passado, quando o editor de sua revista, William Sitwell, disse a uma jornalista freelance que ela deveria escrever sobre “matar veganos, um por um”. Sitwell teve que deixar seu cargo, depois que o supermercado levou um grande processo de relações públicas.

De fato, em breve pode ser um crime discriminar os veganos dessa maneira, já que o veganismo provavelmente se tornará uma característica protegida como religião ou orientação sexual.

Um tribunal trabalhista em março decidirá se o veganismo é uma “crença filosófica” protegida por lei, com base no caso de Jordi Casamitjana, que afirma que seu empregador o demitiu porque ele era um autoproclamado “vegetariano ético”. Um pouco ironicamente, ele foi contratado pela League Against Cruel Sports – uma organização em prol do bem-estar animal.

Então, isso explica por que as marcas estão seguindo a onda do Veganuary? Eles estão tentando ampliar sua gama de produtos para evitar que aparentem “discriminar” seus clientes veganos?

Ou isso é um movimento friamente comercial? Atualmente há mais veganos no Reino Unido do que nunca – o número de membros da Vegan Society aumentou 24% de 2017 a 2018 – e muitas pessoas estão tentando reduzir o consumo de carne e produtos lácteos, aumentando a demanda por alternativas livres de crueldade animal.

Isso ocorre porque o veganismo está na intersecção de duas tendências crescentes, ambas as quais estão repletas de oportunidades de marketing: a preocupação com o meio ambiente e com o bem-estar.

A tendência do bem-estar cresceu enormemente nos últimos anos. O recente artigo de Jessie Hewitson no The Times expôs algumas das maneiras peculiares como as pessoas tentam viver de forma mais saudável, desde o uso de HumanChargers e a medição dos níveis de pH da urina até a ingestão de “carvão ativado”.

Os consumidores estão igualmente mais conscientes do seu impacto ambiental. O veganismo não é mais apenas sobre o bem-estar animal – muitas pessoas provavelmente se inscreveram no Veganuary este mês para tentar reduzir sua pegada de carbono.

Mas enquanto o veganismo é considerado uma dieta ambientalmente mais sustentável – a Carbon Trust, empresa que ajuda os governos a reduzirem suas emissões de carbono, afirma que a carne vegana da Quorn tem uma pegada de carbono até 13 vezes menor do que a carne bovina – algumas empresas ainda não admitem que importar abacates e vegetais exóticos do exterior para atender a este público é realmente mais sustentável do que vender carne de origem local.

E não apenas a sustentabilidade desse último empurrão para o veganismo está em dúvida, os consumidores não têm muita certeza de que essa nova gama de produtos seja realmente feita em condições veganas.

Veja o que aconteceu com a Marks e Spencer quando a empresa tentou tirar proveito do Veganuary.

“A M&S foi criticada por avisar em letras pequenas que os produtos de sua nova linha vegana ‘não são adequados para pessoas com intolerância à produtos derivados de leite ou ovos’. Os produtos ‘veganos’ vinham de fábricas que utilizavam produtos de origem animal, incluindo ovos ou leite,” alerta Amelia Boothman, diretora de marca e estratégia de inovação na agência 1HQ. “Alguns consumidores usaram suas mídias sociais para reclamar dos rótulos veganos enganosos.”

Portanto, tentar lucrar com uma tendência pode sair pela culatra.

Há um risco de que o veganismo esteja sendo reduzido a mais uma moda passageira, da qual muitas celebridades estão se aproveitando: os músicos Jay-Z e Beyoncé “desafiaram” seus fãs neste mês a se tornarem veganos por 22 dias e lançaram um site com planos de refeição e dicas.

Por um lado, com certeza, eles estão incentivando as pessoas a experimentarem o veganismo, mas, por outro, é mais uma oportunidade para que eles desenvolvam sua marca pessoal.

Embora eu tenha certeza de que muitos vegetarianos e veganos receberão uma maior variedade de opções em seus restaurantes e supermercados locais, não esqueçamos que, fundamentalmente, as marcas estão tentando transformar a ética e a moralidade do veganismo em mais uma commodity para lucrar.

Os varejistas de alimentos estão tentando nos fazer comprar seus produtos, comercializando e lucrando com a tendência vegana sem respeitar verdadeiramente seus ideais.

Todos nós podemos admitir que muitas vezes quebramos nossas resoluções de ano novo logo depois de defini-las. Quando chegarmos ao final do Veganuary, talvez as marcas possam fazer outra resolução e se comprometerem a apoiar seus clientes veganos durante todo o ano – mesmo se as vendas diminuírem após o fim do Veganuary.

porcos enjaulados

Veganos não devem se preocupar em parecer ‘extremos’, é a exploração animal que é extrema

Imagine que você está se afogando em uma piscina cercada de pessoas. Você grita e faz o que puder para conseguir ajuda? Ou você, educadamente e conscientemente, levanta a mão, esperando que alguém perceba?

porcos enjaulados

Foto: We Animals

E se uma criança cair no trilho do trem e um trem estiver chegando? Você grita, acena e tenta parar o maquinista? Ou você se preocupa que as pessoas possam pensar que você está exagerando?

Situações extremas

Situações extremas exigem respostas extremas. Quando há uma situação urgente – tal como uma ameaça à vida – normalmente iremos mais além e faremos tudo o que for preciso. Nós deixamos a nossa vaidade de lado e paramos de nos preocupar com o que as pessoas vão pensar de nós. E embora pareça óbvio dizer isso, ainda vejo muitos veganos preocupados com o fato de parecerem “extremos demais” se falarem abertamente sobre a matança de 70 bilhões de animais terrestres a cada ano, e sobre as incontáveis mortes dos ​​peixes e outras criaturas marinhas.

Houve um tempo em que recebi alguns tapinhas nas costas por não ser como “aqueles” veganos. Amigos me disseram que eu era “legal” porque eu não “enchia o saco” sobre o assunto. E isso me incomodou porque eu sabia o que eles realmente estavam dizendo: “Minha consciência não está sendo perturbada, então eu posso continuar a comer carne sem me sentir mal”.

Bem, logo me tornei como “aqueles” veganos. Eu redescobri minha paixão pelo ativismo, por levantar questões e fazer barulho – e angariar fundos para os santuários de animais, que eu considero tão importantes. Eu também tenho escrito algumas exposições de impacto para jornais nacionais, destacando o que realmente acontece nas indústrias de carne e laticínios, além de fazer campanhas.

O “tipo certo” de vegano?

Teria sido mais fácil aceitar elogios de comedores de animais por ser o “tipo certo” de vegano, mas nunca quis levar uma vida fácil. Eu prefiro dizer a verdade – e isso está fadado a desestabilizar algumas consciências quando nossa espécie está fazendo coisas realmente horríveis.

Estamos no meio de uma situação muito extrema. Cada vez mais nos últimos 100 anos, nossa espécie mecanizou a reprodução e a matança de nossos primos animais. Agora eles venderão as asas de uma ave por apenas alguns centavos. Uma perna de um filhote de ovelha. Porcos inteiros cortados em partes. Bilhões de animais que só conheciam a vida em sua gaiola, até chegarem ao matadouro. Fazendas de laticínios onde o leite das vacas é roubado. Fábricas de ovos onde as galinhas são exploradas como máquinas.

Claro que parece extremo. O que está acontecendo é extremo. Se não parece extremo, você está menosprezando fatos.

Silenciados

Nós não devemos deixar que as pessoas nos silenciem. Tomemos por exemplo o termo “floco de neve”. Em alguns círculos, no momento em que alguém sugere uma abordagem mais compassiva para qualquer coisa, um cafajeste sempre aparece para chamá-lo de “floco de neve”. E agora há “fake news” também. Se você revelar um fato desconfortável em 2019, algum idiota vai gritar “fake news” para você.

As pessoas que gritam “floco de neve”, “fake news” ou “vegano extremista” estão fazendo isso para tentar acabar com você. Eles esperam que você fique quieto da próxima vez. E é uma estratégia eficaz em nossa era de autoconsciência sobre nossa imagem, quando parece que as pessoas estão cada vez mais obcecadas com elas mesmas e com sua “marca pessoal”.

Mas vou dizer de novo: situações extremas exigem respostas extremas. Enquanto bilhões de animais estão sendo escravizados, abusados ​​e explorados, não devemos ter medo de perturbar o status quo. Quando as mulheres conseguiriam o direito ao voto se tivessem sido “educadas” e pedido licença antes de falar?

Deixe as pessoas nos chamarem do que quiserem. É sobre levá-las a pensar mais sobre os animais que elas comem e a ética envolvida nisso, o que eles pensam de nós não importa.

Então eu digo: ignore os insultos e continue dizendo a verdade. Tenha fatos e links para compartilhar. Não importa se você é rotulado como extremista por simplesmente dizer a verdade. Só importa que você continue!

Chas Newkey-Burden é um jornalista e escritor vegano. Ele escreveu 29 livros, incluindo biografias de Taylor Swift, Adele e Amy Whinehouse. Atualmente ele escreve para o The Guardian, The Daily Telegraph, The Independent e outros jornais.

um cachorro com a pata em cima de uma mão humana

Raças de cachorro não possuem personalidades distintas

“Breedism” não funciona

“Um dos aspectos mais empolgantes do estudo de cães centra-se em suas marcantes diferenças de comportamento, personalidades e como eles se adaptam a viver em um mundo dominado por humanos”.

um cachorro com a pata em cima de uma mão humana

Foto: Getty Images

Algumas horas atrás eu aprendi sobre um ensaio de Elizabeth Pennisi que está disponível gratuitamente on-line intitulado “Raças de cães realmente têm personalidades distintas – e eles estão enraizados no DNA”. Nesta peça, a Sra. Pennisi oferece uma discussão sobre uma pré-impressão de um ensaio do pesquisador da Universidade do Arizona Dr. Evan MacLean e seus colegas chamado “Diferenças de Raça Altamente Hereditárias e Funcionalmente Relevantes no Comportamento do Cão”, também disponível gratuitamente on-line. Neste estudo, mais de 17 mil cães representando 101 raças foram estudados. Os pesquisadores não analisaram dados genéticos e comportamentais para cães individuais. Pennisi escreve: “Ao todo, a equipe identificou 131 locais no DNA de um cão que podem ajudar a moldar 14 traços-chave de personalidade. Juntas, essas regiões do DNA explicam cerca de 15% da personalidade de uma raça, com apenas um pequeno efeito. Treinabilidade, perseguição e uma tendência a ser agressivo em relação a estranhos foram os traços mais altamente hereditários, relatam os cientistas em um artigo publicado este mês no bioRxiv do servidor de pré-impressão. “Embora os dados deste estudo sejam muito interessantes, especialistas em genética de cães advertem que, “este estudo encontra um papel muito maior para a genética na modelagem do comportamento do que estudos anteriores. Mais trabalho precisa ser feito para verificar as descobertas”. Além disso, uma correlação de algumas características com uma mistura de raça/raça não significa que exista uma relação causal – causa e efeito – entre elas. Em termos simples, a correlação não implica ou prova a causalidade, e a imprensa popular e outras mídias frequentemente não fazem essa distinção, mas sim apresentam discussões simplistas e enganosas sobre a natureza da relação entre diferentes variáveis.

Raças de cães não têm personalidades, os indivíduos têm

Quando eu estava me preparando para escrever este breve ensaio chamando a atenção para o fato de que as raças não têm personalidades, mas sim indivíduos, recebi um e-mail do especialista em cães Dr. Ádám Miklósi, co-fundador do Family Dog Project na Eötvös Loránd University, em Budapeste, sobre o título do ensaio de Pennisi. Ele escreveu: “As raças de cães não têm personalidades … esse elo causará mais danos do que ganhos”. Esse tipo de erro categórico é bastante comum quando as pessoas discutem características que supostamente podem ser encontradas em nível de espécie, por exemplo, e chamar a atenção para esse erro é importante porque representa erroneamente quem os cães são como indivíduos e ignora dentro da raça/dentro da espécie variações que podem ser observadas mesmo entre irmãos de ninhada e irmãos legítimos.

Uma das melhores discussões sobre personalidades caninas para as quais vou regularmente é o capítulo 15, “A organização do comportamento individual”, do livro do Dr. Miklósi, intitulado Dog Behaviour, Evolution and Cognition. Na página 335, ele escreve: “Embora as raças por definição não tenham personalidade, os valores de traços de personalidade obtidos de cães individuais (pertencentes a uma raça específica) podem ser usados para caracterizar uma raça de cão ou um grupo de raças”. Neste capítulo, o Dr. Miklósi também avalia criticamente estudos de personalidades que enfocam as diferenças entre raças e observa que é preciso ter cuidado com a forma como eles são interpretados, porque eles são frequentemente baseados em correlações entre apenas duas variáveis, de muitas possibilidades julgadas por especialistas, e apenas um pequeno número de raças é estudado. Ele também observa que a personalidade não é um traço estável e pode variar com o tempo. Eu não posso cobrir todo o material valioso que o Dr. Miklósi resume em detalhes, e eu recomendo altamente o capítulo 15 para qualquer pessoa interessada no estudo de personalidades caninas.

A importância de prestar muita atenção às diferenças individuais entre os cães

Qualquer pessoa que tenha passado algum tempo perto de cães sabe que existem grandes diferenças individuais entre os membros da mesma raça, as mesmas raças mistas e até mesmo entre irmãos de ninhada e irmãos legítimos. Quando eu estou com cães, eu me concentro nas diferenças individuais entre eles, porque não há dois cachorros iguais. Eu amo quando as pessoas me dizem que vivem com dois cachorros da mesma ninhada e são tão diferentes quanto a noite e o dia. O ponto de partida é que não há “o cachorro”. Cada cão é um indivíduo único e é bom para eles e para nós quando chegamos a perceber que devemos apreciar e compreender cada cão como o indivíduo que é. (Veja Canine Confidential: Por que os cães fazem o que fazem.)

Embora eu ache o estudo do Dr. MacLean e seus colegas muito interessante, desconfio de estereótipos simplificados de raça sobre a personalidade e o comportamento dos membros desses grupos. Eles muitas vezes encobrem as diferenças individuais entre os cães que são colocados neste ou naquele grupo, e eu sei que não estou sozinho ouvindo histórias sobre pessoas que escolhem viver com um cão de uma raça específica ou mistura de raças porque lhes foi dito algo como: “é assim que se comportam nesta ou naquela situação” ou “eles são mesquinhos”, apenas para descobrir que não é bem assim. Algumas pessoas que conheço, e tenho certeza de que não são só elas, acabaram devolvendo os cães que eles resgataram ou compraram de criadores porque não se comportavam da maneira que lhes foi dito que os indivíduos de sua raça em particular “normalmente” se comportam. É bom ter em mente que a correlação não implica ou prova a causação.

O que é tão empolgante em estudar as vidas cognitivas e emocionais de cães e outros animais é o quanto de variação individual existe entre membros da mesma raça/espécie. Os desafios interessantes são entender cada indivíduo por quem eles são, compreender por que existem essas diferenças em habilidades cognitivas, capacidades emocionais e personalidade, e entender como essas diferenças influenciam os tipos de vínculos sociais que um cão pode formar com outros cães e com humanos. É importante não só tornar-se fluente em cães – letrado no assunto -, mas também conhecer e respeitar cada cão como um ser único – o que eles querem e precisam e como reagem a diferentes situações sociais e outras. (Veja “Como você sabe o que os cães fazem, pensam e sentem?”, “Devem os abrigos e os criadores requerer alfabetização no comportamento?”, “ISpeakDog: um site dedicado a tornar-se alfabetizado em cães”, e outros links nele.)

Os cães não se importam com a forma como são rotulados e não devem sofrer por causa da maneira como escolhemos classificá-los. Muitas vezes é mais sobre as pessoas do que sobre os cães. Com demasiada frequência, o “racismo” – estereótipos convenientes, simplistas e enganadores – não serve bem a eles ou a seus (e a outros) seres humanos.

Por que minha resolução de ano novo é falar sobre o sofrimento dos peixes

“Mas você pode comer peixe, certo?” Muitos vegetarianos e veganos têm sido questionados sobre essa questão bem intencionada e isso revela uma verdade importante: quando se trata de especismo, quanto mais uma criatura se parece e age como um humano, mais fácil é para a maioria dos humanos apreciá-la.

um peixe morto sangrando enquanto um homem o manipula numa mesa

Foto: Compassion in World Farming

Pequenas criaturas que vivem na água de alguma forma parecem menos importantes que grandes criaturas que vivem na terra, como nós.

Então, para os peixes fica particularmente difícil – não respirando como nós ou se movendo como nós, fica mais difícil de nos identificarmos.

Hipocrisia

Eu notei isso em mim ao longo dos anos. Quando criança, eu me enfurecia com os matadouros, falava sobre a vivissecção e falava contra a caça às raposas. Meu horror visceral foi instigado por pensamentos de vacas em matadouros e gatos em laboratórios e raposas em pedaços. Tenho certeza de que me importo com peixes e mamíferos marinhos, mas não me lembro de me sentir do mesmo jeito.

Eu me lembro de achar a hipocrisia das outras pessoas estranha. Amigos de escola ficaram orgulhosos quando o atum em seus sanduíches era ‘dolphin-friendly’ – que significa que foi capturado usando métodos que também não matavam golfinhos. Isso é ótimo, eu diria, mas e os atuns?

Um sujeito usou um distintivo de ‘Salve a Baleia’ mas comeu peixe com batatas fritas toda sexta-feira pela noite. O duplo padrão parecia tão gritante para mim. Um outro amigo que adorava os seus cães de estimação, no entanto, gabou-se de ter “pegado” – isto é, matado – peixes no fim de semana.

Eu não conseguia entender minha cabeça. Eu nunca tinha ouvido falar de especismo na época. Eu apenas assumi que eu era um esquisito. Ser vegano em 2018 – especialmente com o acesso à internet – é uma caminhada no parque em comparação com aqueles dias, confie em mim.

Mesmo agora, noto alguns padrões duplos sobre peixes. Há pessoas que fazem campanhas contra o abuso de peixes no SeaWorld e ainda comem peixe de fazendas intensivas. Estes lugares terríveis matam peixes em condições muito piores do que o SeaWorld.

Depois, há as pessoas que dizem que devemos parar de usar tanto plástico, porque isso prejudica os peixes… Embora eles mordam a carne desses peixes.

Uma voz para os peixes

Olhando para trás, lembro-me de uma vez que falei pelas criaturas aquáticas. Eu tinha 12 anos e minha tia me levara para um parque aquático. Depois que um funcionário orgulhosamente conseguiu que os golfinhos fizessem uma série de truques, ele perguntou se alguém tinha alguma dúvida. Eu levantei minha mão e rasguei ele, seu trabalho e todo o parque aquático em pedaços. Ainda me lembro do rosto da minha tia.

A defesa vegana como um todo é muito focada em animais terrestres: nos concentramos nos animais mortos por sua carne, seu leite, seus ovos ou suas peles. Raramente os peixes. Sou tão culpado quanto qualquer um porque escrevi dezenas de artigos sobre abuso de animais para o The Guardian e outros jornais, mas apenas um sobre peixes.

O sofrimento dos peixes

Suas experiências são horríveis. Os peixes que são apanhados nas redes de arrasto são frequentemente esmagados até à morte sob o peso de outros peixes. Seus olhos saem de suas órbitas. Se eles sobreviverem, eles serão deixados sufocados lentamente ou serão estripados com uma faca enquanto ainda estiverem conscientes.

Os peixes das fazendas industriais geralmente são cortados através das brânquias e deixados para sangrar até a morte, eletrocutados em um banho de água, ou têm sua cabeça esmagada bruscamente por um instrumento.

Os pescadores dizem que o peixe não sente dor, mas isso foi refutado. O professor Donald Broom, um conselheiro científico do governo, disse: “A literatura científica é bastante clara. Anatomicamente, fisiologicamente e biologicamente, o sistema de dor em peixes é virtualmente o mesmo que em aves e mamíferos”.

Especialistas descobriram que as lagostas podem sentir mais dor do que os humanos. Eles dizem que as lagostas, que podem viver até 100 anos na natureza, são “animais incrivelmente inteligentes”. No entanto, os frequentadores de restaurantes geralmente não pensam em pegar uma em um tanque e pedir que ela seja fervida viva.

Peixes não são idiotas

A ideia de que os peixes são estúpidos é estúpida por si só. Pesquisadores mostraram que, ao contrário da lenda, os peixinhos dourados têm mais tempo de ‘atenção sustentada’ do que os humanos. Alguns peixes atraem parceiros em potencial cantando para eles ou criando arte. Mergulhadores contam histórias lindas de peixes individuais com os quais fizeram amizade.

Sylvia Earle, uma importante bióloga marinha, disse: “Eles são tão bons, tão curiosos. Você sabe, os peixes são sensíveis, têm personalidades, se machucam quando são feridos”.

Estas são as criaturas que matamos em uma escala inimaginável. A indústria pesqueira mede as perdas em toneladas em vez de vidas individuais. A captura global de peixes selvagens é de cerca de 90 milhões de toneladas, com mais 42 milhões de toneladas provenientes de pisciculturas. Trilhões de vidas.

Podemos não lamentar os bacalhaus e arincas da mesma forma que fazemos com vacas, ovelhas e porcos. Podemos sentir de maneira diferente. Mas cada um de nós pode falar do nosso jeito.

É por isso que minha resolução de ano novo é colocar o peixe no centro das atenções. É hora de fazer mais do que usar um casaco da Sea Shepherd – embora, assim como tantos veganos, eu tenha um desses.

Depois que Franz Kafka foi vegetariano, ele viu alguns peixes e pensou: “Agora, finalmente, posso olhar para vocês em paz, não como mais vocês.”

Isso é lindo. Todo vegano pode se identificar. Mas essa paz não seria ainda mais feliz se, além de não comê-los, lhes emprestássemos também a nossa voz?

Chas Newkey-Burden é um jornalista e escritor vegano. Ele escreveu 29 livros, incluindo biografias de Taylor Swift, Adele e Amy Whinehouse. Atualmente ele escreve para o The Guardian, The Daily Telegraph, The Independent e outros jornais.