Uma cadela que, ainda filhote, foi encontrada com uma das patas traseiras decepada e precisou ter o membro amputado, foi vítima de um ataque virtual. Uma mulher, que não teve a identidade revelada, após ter acesso a imagens da cadela no Instagram, entrou em contato com a tutora dela por e-mail e recomendou que o animal fosse sacrificado por não ter uma pata. Segundo a mulher, a imagem de Penélope, como é chamada a cadela, é “repugnante”.

Foto: Arquivo Pessoal / Patrícia Calainho / Hypeness
A cadela, porém, vive uma vida absolutamente normal. É ativa, feliz e demonstra ter superado todo o horror que viveu no passado. A recuperação foi tamanha que permitiu que ela passasse a integrar o Projeto Pelo Próximo, por meio do qual leva afeto e alegria para crianças e idosos em hospitais, casas de acolhimento e outros ambientes. Não havendo, portanto, justificativa para sacrificá-la – o que, inclusive, a tutora dela, Patrícia Calainho, tentou explicar para a mulher, mas sem sucesso.
No e-mail, a mulher se refere à Penélope como uma “cadela doente e sem pata” e critica imagens publicadas em um perfil do Instagram feito para o animal, no qual a cadela aparece ao lado de crianças. Na opinião da internauta que enviou o e-mail à Patrícia, as crianças “podem se chocar” com a deficiência de Penélope e, por isso, a tutora deveria usar “fotos mais discretas ou do outro dela [da cadela]”, mas, ainda segundo a mulher, “o melhor seria sacrificar do que largar o bicho desse jeito.”

Em resposta, Patrícia afirmou que “Penélope não tem nenhuma doença” e que ter a adotado foi uma sorte e alegria. “Minha família é imensamente agradecida a cada instante com ela e todo amor que ela nos dá”, disse Patrícia. Ao abordar a questão do convívio da cadela com crianças, a tutora lembrou que conversou com a filha ao longo da infância e continua fazendo-o na adolescência da menina para explicar para ela que “doente é o ser humano (será humano mesmo?) que viu um filhote de 4 meses, indefeso, e decepou sua pata. Que o que choca é a covardia. Que a maldade humana, sim, traumatiza qualquer um, independente da idade”. Patrícia disse ainda que, dialogando dessa forma com a filha, a menina entendeu, “nessa pequena jornada de seus 15 anos, que doente é quem carrega no peito uma pedra, ao invés de um coração repleto de empatia pelo próximo, seja ele como for ou da espécie que for”. Patrícia lembrou também da alegria e admiração da filha ao ver atletas com deficiência competindo nas Paralimpíadas e questionou a mulher: “a senhora consegue imaginar [ser] possível eutanasia-los?”

Sobre o Instagram “Três Patas de Penélope” e as imagens nele publicadas, Patrícia afirmou, ainda em resposta à mulher, que o perfil tem como foco a inclusão e o incentivo à adoção de animais com deficiência e, ao retornar ao assunto anterior, disse que “as crianças se encantam” com a cadela, ao invés de se chocarem com ela.
Apesar da paciência de Patrícia para tentar mudar a opinião da internauta que a contatou, os esforços foram em vão e, em mais uma troca e e-mails, a mulher fez uma ameaça. “Tenho muitos amigos ricos! Estou cercada de pessoas muito influentes no RJ” e novamente indicou o sacrifício da cadela para, segundo ela, poupar as pessoas do que ela chama de “imagem repugnante”.

Esse ataque virtual sofrido pela cadela e, por consequência, pela tutora dela, expôs ainda mais a necessidade de existirem projetos como o protagonizado por Penélope, não só no contato direto com as pessoas em hospitais e demais locais, mas também através das publicações feitas por Patrícia nas redes sociais para conscientizar as pessoas sobre a necessidade de respeitar as diferenças, amar os outros – sejam animais ou humanos – independentemente das deficiências deles e adotar um cachorro ou gato com alguma limitação física ou mental.
Para contar um pouco mais sobre a história de vida de Penélope e o projeto do qual a cadela faz parte, Patrícia concedeu uma entrevista ao portal Hypeness, que pode ser conferida na íntegra abaixo.
1. Como a Penélope chegou na sua família?
Sempre pensamos em adotar um animal especial. Sabe aqueles que ficam no último lugar da fila dos “inadotáveis” ? São os que mais nos encantam por tudo que já passaram na vida. Cada olhar traz muita vontade de viver e recomeçar. Entrei em contato com protetores buscando uma mocinha com deficiência e chegamos até Penélope e seu jeitão super alegre.
2. E de onde surgiu a inspiração para tornar a Penélope um cão de apoio terapêutico?
Minha avó vivia há alguns anos em Home Care (internação domiciliar). Enfermagem, equipamentos, etc. Foi quem me ensinou a amar animais. Já tinha adotado o Snoopy há 1 ano e apesar da minha avó ter 3 gatos, sentia que quando o levava para visitá-la, a ajudava imensamente. Depois chegou Penélope e era uma festa quando chegava com os dois. Renovavam os sorrisos dela, inclusive a vontade de viver, apesar de seu quadro de saúde.

Foto: Arquivo Pessoal / Patrícia Calainho / Hypeness
3. Qualquer cachorro pode exercer essa função?
Não. Foi exatamente o que aconteceu com Snoopy e Penélope quando os inscrevi na seleção para cães de terapia do Projeto Pelo Próximo. Apesar de muito dócil, Snoopy tem traumas e é muito inseguro fora de casa. Não passou. Brinco que ele foi cão de terapia “exclusivo” da minha avó. Já Penélope é cheia de energia, mas ela sente quando está em atendimento e fica muito tranquila.
Para ser cão de terapia do projeto, o animal precisa ter mais de 1 ano, ser extremamente dócil e castrado. E acima de tudo, se sentir bem nos atendimentos, pois seu bem estar é prioridade.
4. Como você descreve a reação das crianças e idosos impactados pelas visitas da Penélope?
Na maioria das vezes, demoram a perceber que Penélope não tem 4 patas e depois de algum tempo, se encantam por ela viver com a mesma alegria que qualquer animal. Perguntam como foi que ela perdeu a patinha e percebem tudo que ela superou com o amor de uma família. Recebo mensagens de várias famílias. Uma das crianças resolveu fazer um piquenique no play para convidar a nova vizinha de 7 anos, que é cadeirante, para brincar com outros amigos. Outra mãe mandou foto de uma pelúcia de cachorro que rasgou na altura da pata e que a pedido da filha, ao invés de descartar, era para costurar e “deixar igual à Penélope, com 3 patas”. Familiares dos idosos relatam que eles estão até caprichando mais na fisioterapia e melhoraram muito a autoestima. Ficamos muito felizes quando uma instituição pediu que seus alunos escolhessem a atividade que mais gostaram no ano passado para tentarem repetir esse ano: visita da Penélope! E de quebra, as crianças pediram para ir com ela visitar um asilo!

Foto: Arquivo Pessoal / Patrícia Calainho / Hypeness
5. E que tipo de inspiração o contato com ela traz para essas crianças no seu desenvolvimento?
Superação! Não existem incapacidades e sim possibilidades. Muitas vezes, as crianças não convivem com pessoas ou animais com deficiência e imaginam barreiras que não existem quando temos empatia com as diferenças. Com uma abordagem lúdica, tendo Penélope como agente facilitador, tentamos sensibilizar o público infantojuvenil com exemplos e caminhos para perceber que as diferenças não são defeitos e com atitudes que possam incentivar a compaixão e o respeito pelo próximo. Também procuramos plantar sementes sobre a guarda responsável e incentivar a adoção de animais.
6. Caso um colégio queira receber a Penélope, como faz?
Basta entrar em contato conosco pelas nossas redes sociais ou e-mail (trespatasdepenelope@gmail.com).
A nossa visita não tem nenhum custo para a escola e alinhamos com a coordenação pedagógica temas sobre bem-estar animal, diferenças, diversidade, empatia, respeito, etc. Fazemos um paralelo entre os desafios que pessoas e animais enfrentam para o acolhimento de suas diferenças. Escolas do mundo inteiro estão aproveitando os benefícios dessa parceria homem e animal no desenvolvimento de seus alunos.
7. E o que você aconselha para pais que queiram criar seus filhos de uma maneira mais inclusiva em relação a animais e pessoas com deficiência?
Primeiramente, diálogo. As crianças não nascem com o preconceito, mas crescem com curiosidades e precisam de incentivo para perceber que as diferenças fazem parte da vida.
Nossas visitas começam com a exibição de um curta que foi nossa inspiração: The Present (O Presente).
Assistam esse curta com seus filhos, família, amigos! Também existe material incrível na internet sobre pessoas e animais que enfrentam o desafio da inclusão e superam a cada dia seus limites. São inúmeros exemplos que inspiram e renovam nossos corações. A educação e o exemplo positivo são a base para construção de um mundo melhor para nossos filhos e todos os seres vivos.