Partido antitourada pronto para o avanço das eleições espanholas

Foto: Pedro Armestre/AFP/Getty Images

Foto: Pedro Armestre/AFP/Getty Images

Se as pesquisas e os especialistas estiverem corretos, o partido Vox da Espanha alcançará seu tão profetizado avanço nas eleições gerais de domingo, tornando-se o primeiro grupo de extrema direita a conquistar mais de um assento no parlamento espanhol desde que o país embarcou em seu retorno pós-Franco à democracia.

Embora as chances da Vox de atrair cerca de 11% dos votos tenham ocupado as manchetes, outra pequena parte – com uma visão de mundo marcadamente diferente – também está se preparando para um dia histórico nas urnas.

O partido pelos direitos animais, Pacma, fundado há 16 anos com o objetivo de pôr fim às touradas, pode ganhar dois assentos no congresso dos deputados, segundo a mais recente pesquisa do Centro de Estudos Sociológicos (CIS) do país.

Com o avanço iminente do Vox, a chegada do Pacma na arena da política nacional teria sido extraordinariamente improvável até poucos anos atrás.

O partido ambientalista espanhol, Equo, conseguiu três cadeiras no parlamento nas eleições gerais de 2015, mas somente depois de entrar para a coalizão liderada pelo partido Poyo anti-austeridade.

A líder do Pacma, Silvia Barquero, atribui o ímpeto repentino do partido aos anos de trabalho duro, mudanças demográficas e uma crescente conscientização dos direitos animais e do ambientalismo na Espanha.

Silvia Barquero líder do partido PACMA | Foto: PACMA/Flickr

Silvia Barquero líder do partido PACMA | Foto: PACMA/Flickr

“Mais e mais pessoas estão confiando em nós como um grupo político”, disse ela. “Se conseguirmos ganhar duas cadeiras, vamos fazer história no país onde as touradas acontecem e onde as pessoas ainda abandonam e enforcam galgos. Esta é uma imagem muito prejudicial para o país”.

O Pacma, que se opõe à caça e à pesca esportiva, também quer ver o fim dos circos, shows aquáticos e “o uso de animais, vivos ou mortos, em qualquer tipo de espetáculo, tradição ou festival”.

O partido Vox e o conservador Partido do Povo (PP) tomaram o rumo oposto, colocando toureiros e a viúva de um toureiro morto numa tourada há três anos, como candidatos, e procurando se retratar como guardiões das tradições rurais da Espanha.

Mas Barquero acredita que mais e mais espanhóis estão passando a rejeitar as touradas e “não se sentem capazes de se identificar com um país que vê o espetáculo de horror como uma celebração nacional”.

Ela acrescentou: “Há uma nova geração de pessoas que estão preocupadas com os animais e com o meio ambiente além de terem uma compreensão de justiça social que vai muito além do que você vê na política espanhola no momento”.

O partido, que também deve ganhar seus primeiros assentos no Parlamento Europeu nas eleições do próximo mês, sua votação aumentou de 44.795 em 2004 para 286.702 nas eleições gerais de 2016. Desta vez, espera conseguir cerca de meio milhão de votos.

Barquero diz que a segunda prioridade do Pacma depois do bem-estar animal é proteger o meio ambiente e introduzir “medidas drásticas e imediatas” para combater a mudança climática.

Ela diz que nunca houve uma forte tradição de partidos ambientais na Espanha, e argumenta que o partido Equo foi “totalmente neutralizado” depois de unir forças com o Podemos.

Mas ela insiste que as questões ambientais são urgentes demais para serem ignoradas ou abordadas com soluções políticas de ação rápida.

“Precisamos de medidas globais que vão muito além das soluções locais ridículas que os partidos políticos comentam durante as campanhas eleitorais”, disse ela.

Militantes do partido PACMA | Foto: PACMA/Flickr

Militantes do partido PACMA | Foto: PACMA/Flickr

“Eles estão apenas pensando na próxima eleição – não sobre as consequências de suas decisões políticas para as gerações que se seguirão.”

Por muito tempo, disse ela, os partidos políticos espanhóis procuravam formar capital político para além da crise da independência da Catalunha e disputas entre “tensões e conversas sobre fronteiras e bandeiras”.

“As pessoas estão doentes e cansadas da situação política na Espanha – que não está indo a lugar nenhum – e da falta de autenticidade de seus políticos”, disse Barquero.

“Estamos tristemente acostumados com a ideia de que um político diz uma coisa e depois faz o contrário aqui. [Mas] há uma nova geração que está em sintonia com os valores do Pacma. São jovens entre 18 e 35 anos. A maioria dos nossos eleitores são mulheres nessa faixa etária”.

Ela deixou claro que o compromisso do Pacma com o bem-estar animal e o meio ambiente estava evidente pelo fato de que seus líderes e porta-vozes serem todos veganos.

“Acreditamos que a produção de carne é uma das principais ameaças ao planeta quando se trata de mudança climática – e estamos pessoalmente comprometidos em fazer algo a respeito”, disse ela.

“Essa é a melhor maneira de mostrar que estamos do lado do meio ambiente e das pessoas”.

Barquero diz que toda a filosofia do Pacma é baseada na empatia e minimização do sofrimento e da desigualdade.

O partido está envolvido em um debate interno sobre o aborto e o ponto em que os fetos começam a sentir dor.

“Não há debate ético sobre o sofrimento quando alguém tem apenas duas células, mas quando o feto tem o estímulo nervoso para sentir e sofrer”, disse ela.

“Estamos muito interessados em saber, cientificamente, em que ponto exato isso acontece. Para nós, é aí que o limite deve ser e após o qual o aborto não deve ser permitido. É eticamente inaceitável”.

Barquero descreve o Pacma e o Vox como opostos completos – “somos tão diferentes quanto a noite e o dia” – mas reconhece que sua existência ajudará os eleitores a fazer uma escolha clara no domingo.

“Mais e mais pessoas não querem ser associadas às touradas e à caça, que, como o resto do que Vox está propondo, fazem parte do nosso passado. O Vox viu que somos uma ameaça e vem dizendo exatamente o oposto do que temos dito: “Vamos defender a caça! Nós vamos defender as touradas! ‘”

As pesquisas sugerem que o Partido dos Trabalhadores Socialistas Espanhóis (PSOE) vencerá a maioria dos votos – 29,2% -, mas fica bem aquém da maioria total. O PP terá 20,1%, segundo as pesquisas; o Cidadão de Centro-Direita 15,5%; o Podemos 13,6% e o Vox 10,7%.

Barquero disse que seu partido apoiaria “um governo progressista” liderado pelo PSOE, mas que seu apoio dependeria da consideração dos socialistas em relação às propostas do Pacma para acabar com os maus tratos aos animais na Espanha.

“Eu me sinto envergonhada que pessoas em outros países vejam a Espanha como o país das touradas – isso precisa ser eliminado da imaginação coletiva, já que está causando muito prejuízo ao país”, disse ela.

Candidata vegana vence oponente pró-agropecuária em disputa por uma vaga no parlamento

Foto: Emma Hurst

Foto: Emma Hurst

Emma Hurst prometeu que não será mais “um político cheio de promessas vazias”, dizendo que planeja fazer “o que for preciso” para realizar mudanças em favor dos animais.

A candidata do partido Animal Justice Party (Partido pela Justiça Animal, na tradução livre), derrotou o liberal-democrata David Leyonhjelm na disputa por uma segunda cadeira no parlamento de New South Wales (NSW) pelo seu partido – juntando-se ao colega político AJP, Mark Pearson.

Leyonhjelm estava tão confiante que iria vencer, que publicou um post em um blog intitulado “Um manifesto para um crossbencher (membro independente ou de um partido menor do parlamento)” muito antes de os resultados serem anunciados, em que ele escreveu: “com base na contagem até agora, é evidente que eu já fui eleito”.

Mudança para os animais

Hurst disse anteriormente ao Plant Based News que estava concorrendo ao parlamento porque se sentia “enojada com a forma como o atual governo permitia que grandes corporações fossem cruéis com animais simplesmente por lucro”.

“Mudando as políticas e a lei, e bloqueando outras leis que causariam danos aos animais, tenho certeza de que podemos construir um país que seja gentil e respeitoso com todas as espécies”, acrescentou.

Foto: Ciao/Reprodução

Foto: Ciao/Reprodução

“Minha promessa aos animais é esta: vocês tem tudo de mim. A leoa no circo – eu vejo você. O porco no matadouro – eu vejo você. O rato no laboratório de testes – eu vejo você. O peixe esmagado no fundo de uma rede de arrasto – eu te vejo. Eu conheço seu sofrimento, e eu nunca vou ficar em silêncio. Eu vou seguir em frente não importa o que a vida jogue no meu caminho, porque as crueldades infligidas a vocês devem acabar, e eu farei tudo o que posso para ver isso acontecer. Vocês tem tudo de mim”.

Fazendo a diferença

Depois que sua vitória foi anunciada, Emma Hurst publicou uma declaração no Facebook, dizendo: “Você acreditou que o Animal Justice Party poderia fazer a diferença no parlamento. Você acreditou que juntos poderíamos mudar o mundo. Você acreditou, e por causa de sua confiança, nós ganhamos! Hoje escrevo para contar a maravilhosa notícia de que os animais têm outra voz no Parlamento em NSW”.

“Nós mostramos mais uma vez que quando todos nos reunimos, nosso movimento é mais poderoso do que qualquer coisa, que os “Atiradores” e os “Pescadores” ou o “Partido Nacional” podem nos atacar que não fará diferença. Dezenas de milhares de pessoas votaram no Animal Justice Party porque viram o que nós vimos: que é hora de mudar. E nós faremos a diferença”.

“Mas isso é apenas o começo. Agora o verdadeiro trabalho começa. Eu não serei um político cheio de promessas vazias – eu pretendo fazer o que for preciso para realizar as mudanças para os animais, porque ainda existem milhões de galinhas em gaiolas, existem coalas tendo seus lares demolidos, e há animais levando tiros vindos do céu (alvejamento aéreo). Por eles, devemos agarrar esta oportunidade”.

Foto: Emma Hurst/Facebook

Foto: Emma Hurst/Facebook

“Agora temos a chance de conseguir outro membro no parlamento nas eleições federais. Eu nunca estive mais confiante de que conseguiremos. Vamos ser implacáveis, audaciosos e tenazes. Vamos exigir mudanças. Vamos nos levantar sem medo e entrar com tudo neste novo momento”.

Excitante

“Conheço Emma há muitos anos, ela atuou em diversas funções em organizações de defesa animal, incluindo a Animal Liberation e a PETA”, disse Katrina Fox, fundadora da Vegan Business Media, ao PBN.

“Ela é inteligente, apaixonada e articulada e sua mudança para a política é uma vitória para os animais. A Lei de Prevenção à Crueldade com Animais é administrada em nível estadual, para que Emma tenha a oportunidade de fornecer uma voz muito necessária aos animais em New South Wales em questões como o desmatamento, a agricultura e os códigos e padrões da indústria de produção e de abate”.

“Ela também tem interesse em proibir gaiolas industriais para galinhas, acabar com corridas de galgos e parar a destruição dos habitats dos coalas.

“O governo da Coalizão precisará do apoio de cinco parlamentares para conseguir aprovar a legislação, caso o partido do trabalho (Labor) se opuser. Emma e o membro do AJP Mark Pearson serão dois desses articuladores, o que significa que qualquer legislação prejudicial aos animais não terá um passe fácil”.

“Emma prometeu não ser uma política cheia de ‘promessas vazias’ e eu acredito nela. Ela está comprometida em criar uma mudança real para os animais. É emocionante ter uma terceira voz para todos os animais na política australiana e espero que mais membros do Animal Justice Party sejam eleitos em nossa próxima eleição federal em 18 de maio”, conclui Katrina