Ibama resgata 213 animais silvestres que seriam vendidos em feiras

Os animais serão devolvidos à natureza após avaliação e eventual reabilitação em centro de triagem

No último domingo, o Ibama e a Agência Estadual de Meio Ambiente (CPRH) de Pernambuco resgataram 140 animais silvestres de 31 espécies nativas, como galo-de-campina, patativa, canário-da-terra, pintor-verdadeiro, bicudo e periquito-da-caatinga, em uma operação realizada na Feira do Cordeiro, em Recife (PE).

Vinte e três infratores foram detidos em flagrante e conduzidos à Polícia Civil para apuração de responsabilidade criminal. Os animais serão devolvidos à natureza após reabilitação em centro de triagem.

Os agentes ambientais aplicaram 26 autos de infração, totalizando R$ 165,2 mil, e apreenderam 51 armadilhas para captura de aves. Um dos objetivos da operação é combater a cultura de tolerância com a venda ilegal de animais silvestres em feiras livres do país.

73 aves silvestres são resgatadas de cativeiro em SE

Em Umbaúba, no sul de Sergipe, agentes ambientais resgataram 73 aves mantidas em cativeiro ilegal, após denúncia apurada pela Polícia Civil do estado. Entre os animais estavam 17 da espécie saíra-sete-cores, ameaçada de extinção, e filhotes de jandaia e maracanã – 14 pássaros morreram em decorrência de maus-tratos.

Na residência do infrator foram encontrados equipamentos para transporte dos animais. De acordo com a investigação, as aves seriam comercializadas em feiras livres da região. Dois autos de infração foram aplicados: R$ 140 mil por manter em cativeiro espécimes da fauna silvestre sem permissão da autoridade ambiental responsável e R$ 36,5 mil por maus-tratos.

Em novembro de 2018, o Ibama já havia apreendido 148 pássaros mantidos em cativeiro pelo mesmo infrator, que então foi autuado em R$78,5 mil reais e passou a ser monitorado pela Polícia Civil. O Ibama recebe denúncias sobre maus tratos e outras atividades ilegais relacionadas à fauna silvestre pelo telefone 0800 61 8080.

Resgate de fauna é serviço obrigatório pouco divulgado em universidades

Os animais resgatados podem ser reabilitados e soltos novamente na natureza — Foto: Acervo Biotropica

Construções de grandes estradas, hidrelétricas, ferrovias e linhas de transmissão de energia são importantes para o desenvolvimento das cidades e para o dia a dia da população. No entanto, a área ocupada por esses grandes empreendimentos sofre com o impacto ambiental. Por isso, leis como a do resgate de fauna são indispensáveis na preservação das espécies locais.

Regulamentado pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama), a norma prevê ações voltadas aos animais provenientes, direta ou indiretamente, de uma área impactada.

Captura, coleta, transporte e destinação dos indivíduos resgatados para refúgios naturais são algumas das etapas que garantem a sobrevivência da fauna. “Os programas de salvamento também têm a função de minimizar os impactos dos empreendimentos sobre as comunidades biológicas locais e garantir as interações ecológicas e o equilíbrio dos ecossistemas naturais”, explica o biólogo Renato Gaiga.

As áreas que recebem os animais são monitoradas por biólogos ao longo do tempo — Foto: Renato Gaiga/Arquivo Pessoal

De acordo com o especialista, a captura dos animais silvestres deve ser feita somente quando o animal encontrado tem dificuldades naturais de locomoção ou está debilitado. “A captura deve ser bem elaborada e planejada para possibilitar a contenção do animal sem que ele se sinta estressado. Além disso, ela só poderá ser feita após requerimento enviado ao Ibama”, alerta Gaiga, que também ressalta os cuidados necessários para o transporte e a destinação dos animais.

O transporte deve ser feito com cuidados para que eles não se estressem. A fauna resgatada precisa receber tratamentos especiais com o acompanhamento de profissionais habilitados
— Renato Gaiga, biólogo

Quando resgatados, os indivíduos podem ser levados para áreas de soltura ou para centros de triagem, onde biólogos irão identificar as espécies e veterinários irão avaliar o estado de saúde dos animais. “Assim eles poderão ser reabilitados e soltos novamente na natureza, em áreas determinadas pelos órgãos ambientais”, explica o biólogo.

O local de triagem deverá estar equipado com recintos, equipamentos hospitalares veterinários e um pequeno laboratório para procedimentos

Após a triagem e a soltura, é necessário ainda monitorar as áreas em questão. “Os biólogos avaliam a região de soltura ao longo do tempo, assim como acompanham os indivíduos ali realocados”, completa Gaiga.

É importante que o biólogo se especialize em um grupo faunístico específico — Foto: Acervo Biotropica

Oferta e demanda

Previsto pela legislação ambiental, a atividade é obrigatória, mas pouco valorizada no âmbito da conservação. “Os empreendedores sabem da necessidade do serviço, mas não encaram como investimento em sustentabilidade e preservação. Na maioria das vezes tratam como ‘gasto’ e empecilho da obra”, lamenta o biólogo, que também problematiza a escassez de informação quanto ao resgate de fauna nas faculdades.

“Você não encontra muitas informações sobre o resgate de fauna. As universidades não detalham o mercado e nem os serviços que podem ser prestados por biólogos e veterinários”, relata.

De modo geral, as faculdades de biologia e veterinária não abordam serviços técnicos de consultoria focados em animais silvestres. Sendo que esse campo é vasto e promissor
— Renato Gaiga, biólogo

Assim, o biólogo incentiva a especialização em espécies silvestres. “No caso dos biólogos, há ainda a necessidade de se especializar em um grupo faunístico específico, como anfíbios e répteis, ou mamíferos, aves e insetos”, explica Renato, que entende o resgate de fauna como iniciativa imprescindível para a preservação das espécies em áreas afetadas, além de oportunidade para os profissionais.

O resgate visa proteger a fauna silvestre em áreas impactadas por atividades humanas — Foto: Acervo Biotropica

Dicas da Gente

Visto a escassez de conteúdo, Gaiga e o colega veterinário, Leonardo Schwab, ministrarão uma aula online sobre o resgate de fauna.

“Foi pensando nessa carência de informações que resolvemos dar essa aula, a fim de orientarmos e inspirarmos estudantes e profissionais que sonham em trabalhar com animais silvestres e ainda não sabem quais os passos necessários para trilhar uma carreira sólida na área”, diz o biólogo.

A aula “Os bastidores do resgate de fauna: o passo a passo para a excelência”, tem duração de duas horas, é gratuita e necessita de inscrição.

“Para se inscrever gratuitamente, basta acessar o link, cadastrar seu e-mail e ficar de olho nas próximas instruções que serão enviadas”, explica Renato, que convida estudantes a participarem da iniciativa.

“Queremos mostrar que a pessoa pode começar a se capacitar ainda na graduação. O inscrito terá acesso a um conteúdo que ajudará a entender o que é de fato o resgate de fauna e como começar a trabalhar na área”, completa.

A aula online será transmitida hoje às 20 horas.

Fonte: G1

Vale deu remédio vencido para animais em Brumadinho (MG), diz Ibama

O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) denunciou que a Vale negligenciou o atendimento aos animais resgatados em Brumadinho (MG), oferecendo medicamentos vencidos a eles. A denúncia foi feita nesta quinta-feira (14) pela coordenadora de Emergências Ambientais do Ibama, Fernanda Pirillo, durante audiência na comissão externa da Câmara de Deputados para apurar as circunstâncias do rompimento da barragem do Córrego do Feijão.

(foto: Gladyston Rodrigues/Estado de Minas)

“Temos feito vistorias diversas nas áreas que a Vale está implementando para o recebimento de animais e temos verificado a validade de medicamentos. Por incrível que pareça, nos primeiros dias, a Vale tinha providenciado medicamentos vencidos”, afirmou. As informações são do portal Correio Braziliense.

De acordo com a coordenadora, vistorias diárias estão sendo feitas por uma equipe do Ibama. “Temos mais de 60 relatórios e estamos com uma média de 20 servidores por dia em campo”, explicou.

O órgão está redirecionando o resgate de animais e tem trabalhado de forma integrada com o Ministério Público e órgãos ambientais estaduais. “Não só dos animais que foram impactados pela lama, como também dos que ficaram presos nas casas e nas instalações que foram abandonadas. E também daqueles que não haviam sido impactados, mas passaram a ser porque costumam buscar água nessas áreas e ficaram atolados”, finalizou.

O desafio para se conter o comércio tráfico de aves no Brasil

O Brasil tornou-se o primeiro país da América do Sul a proibir, por lei, o comércio de animais silvestres. Isto aconteceu em 1967, e foi o jeito que o governo da época encontrou para romper o abuso depois de décadas de exploração intensiva que causou a extinção de muitas espécies, sobretudo de aves.

Foto: Pixabay

Pouco antes da Primeira Guerra Mundial, por exemplo, um único comerciante londrino importou 400 mil beija-flores e 360 mil outras aves do Brasil. Em 1932, cerca de 25 mil beija-flores foram caçados no Estado do Pará e enviados para a Itália para enfeitar caixas de chocolate.

Centenas de milhares de aves vivas foram depois exportadas como animais domésticos em toda a América do Sul após meados da década de 1950, depois que as conexões das companhias aéreas comerciais, principalmente através de Miami, estavam regularmente disponíveis.

O Brasil tornou-se o primeiro país da América do Sul a proibir, por lei, o comércio de animais silvestres. — Foto: Unsplash

Bem, mas isto é história, e está bem contada no novo estudo sobre comércio de aves da América Latina produzido pela ONG Traffic, que trabalha no contexto da conservação da biodiversidade e do desenvolvimento sustentável com apoio do WWF. O relatório é extenso, chama-se “Bird’s-eye view: Lessons from 50 years of bird trade regulation & conservation in Amazon countries” (“Vista Aérea: Lições dos 50 anos de regulamentação e conservação do comércio de aves nos países da Amazônia”, em tradução livre) e traz um panorama sobre o comércio de aves no Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Peru e Suriname e as ameaças à conservação representada pelo excessivo comércio internacional de espécies.

De 30 a 35 mil aves são confiscadas anualmente, diz o estudo. — Foto: Unsplash

A boa notícia para o Brasil é que temos uma lei — e que, por causa dela, aquele abuso cometido no passado deu uma estancada. Um turismo com base em observação de pássaros no Brasil, Equador e Colômbia dá incentivo econômico e força para coibir os predadores. Mas, assim como há lei, há quem transgrida a lei. E o comércio clandestino de aves é, hoje, um enorme desafio para se manter nossas espécies — ou, pelo menos, o que restou delas.

O estudo mostra que, em média, 30 a 35 mil aves são confiscadas anualmente, muitas delas destinadas a “competições de canto de pássaros”, onde os espectadores apostam dinheiro nos resultados de quantas músicas ou frases um pássaro cantará em um determinado período de tempo. Para nossa sorte — de pessoas que se sentem felizes em ouvir cantos de pássaros sem precisar engaiolá-los — este número não variou significativamente nos últimos 15 anos. Assim mesmo, diz o estudo, a indústria que produz gaiolas, alimentos e outros requisitos para a manutenção de aves no Brasil é um negócio multimilionário que gera cerca de 300 mil empregos diretos e indiretos. Há sempre alguém que se beneficia.

A indústria que produz gaiolas, alimentos e outros requisitos para a manutenção de aves no Brasil é um negócio multimilionário. — Foto: Pixabay

Autor do estudo, o especialista Ortiz-von Halle afirma que o comércio ilegal internacional de aves sul-americanas foi reduzido ao seu nível mais baixo em décadas. No entanto, isso aconteceu “principalmente porque as espécies de aves mais procuradas pelos colecionadores já existem na maioria dos países consumidores”. Ou seja, a exploração foi tanta que tem espécies nativas que deixaram de ser.

“As complexidades do comércio de aves têm sido subestimadas. Para garantir um futuro para as espécies cada vez mais ameaçadas da região, precisamos de estratégias integradas que busquem urgentemente impedir ou reverter a destruição de habitats e melhorar a fiscalização, complementados com incentivos econômicos para a geração local de renda através do turismo e uso sustentável dos recursos naturais. Isso oferece o melhor caminho para a notável avifauna da América do Sul”, disse ele.

A Lei de Proteção à Fauna, assinada no regime militar no dia 3 de janeiro de 1967, o que mudou o status da vida selvagem, pelo menos perante a lei. — Foto: Unsplash

Para entender melhor o que ele quer dizer com “complexidades”, vamos à história que Ortiz Von-Halle conta — cenas de antes da lei que coibiu o abuso e que podem ilustrar a trajetória dos desafios que temos ainda hoje:

Até o Canal de Panamá ser aberto, em 1914, todos os navios que retornavam para a costa leste dos EUA ou Europa, do lado do Pacífico da América do Norte e do Sul, paravam nos portos brasileiros. Isto facilitou o envio de muitas mercadorias, incluindo aves vivas, penas e suas peles secas, e levou milhares de papagaios, tucanos e primatas de muitas espécies para Nova York e para o mercado europeu.

Só em 1964, numa única fazenda do Amapá, 60 mil patos foram mortos. — Foto: Unsplash

Com a ajuda do ornitólogo Helmut Sick, que tem mais de 200 trabalhos publicados sobre o tema, o autor do estudo descobriu que, só em 1964 — e numa única fazenda no Amapá —, 60 mil patos foram mortos. Entre 1930 e 1940, fotos guardadas pelo especialista mostram caçadores fazendo pose ao lado de centenas de carcaças de uma espécie de pato que era característica de Londrina e que hoje não existe mais. Por volta de 1914, na região do Rio Negro, um comerciante empregou 80 homens com o objetivo de caçar e matar garças. Tudo isso abastecia o mercado de penas e peles nos séculos XIX e XX: para um quilo de plumas, 300 mil teriam que ser mortos.

Durante a Primeira Guerra Mundial, foram importados 400 mil beija-flores e 360 mil outras espécies de aves.

E veio a Lei de Proteção à Fauna, assinada no regime militar no dia 3 de janeiro de 1967, o que mudou o status da vida selvagem, pelo menos perante a lei.

“… Não pode ser considerado um direito do cidadão, ou negligenciado indulgentemente, a destruição de elementos vitais do equilíbrio biológico. A caça pode ser permitida como esporte, mas nunca como fonte barata para uma indústria extrativa. A vida selvagem é mais do que o patrimônio do Estado: é um elemento para o bem-estar dos homens e da biosfera ”, diz o texto da lei.

Durante a Primeira Guerra Mundial, foram importados 400 mil beija-flores e 360 mil outras espécies de aves. — Foto: Pixabay

Foi com a Constituição de 1988 que a destruição da vida selvagem através da caça por lucro ou esporte foi banida. A solução foi a reprodução em cativeiro, “considerada uma alternativa sensível à conservação para exploração comercial da fauna nativa”. Assim, o último programa legal de caça ao pato no Estado do Rio Grande do Sul foi declarado inconstitucional e fechado em 2008.

Na ilegalidade, o contrabando tem causado baixas em nossa biodiversidade, o que, como se sabe, colabora sensivelmente para acelerar o processo das mudanças climáticas. Entre Brasil e Portugal, por exemplo, países que têm uma ligação com mais de 60 voos diretos por semana, é uma farra. Em vez de levarem as aves vivas, os marginais descobriram ser possível contrabandear ovos, atividade que começou por volta de 2002, segundo o estudo, já que papagaios e tucanos vivos, enviados sedados, costumavam chegar mortos a seu destino.

“Os ovos são transportados amarrados aos corpos dos passageiros para manter a temperatura de incubação durante o voo de 10 a 14 horas. Eles são embalados em papel de seda dentro da meia-calça feminina ou vão enrolados na cintura da pessoa”.
Organizações não governamentais têm sido importantes, junto com o Ibama e o ICMBio, para conter o desatino. Na conclusão de seu estudo de caso sobre as aves do Brasil, o autor diz que é um desafio muito grande tentar conter o contrabando ou mesmo o uso indevido de aves porque existe, entre outras coisas, uma falta de informação sobre a preciosidade desses animais para o planeta.

Foi com a Constituição de 1988 que a destruição da vida selvagem através da caça por lucro ou esporte foi banida. — Foto: Unsplash

“A estratégia para estancar os criadores comerciais parece estar tendo algum efeito, já que seus números continuam diminuindo, mas as centenas de milhares de amadores representam um desafio maior. A posse habitual de espécies de aves nativas como animais de companhia é muito difundida. A consciência ambiental geral aumentou em certos setores do Brasil, que constitui 70% da população. Mas a população rural e suburbana mais ampla ainda carece dos níveis de educação, motivação e conscientização. A pobreza sempre empurrará as pessoas para capturar a vida selvagem em busca de lucro ou de maneira oportunista para acessar alimentos ou outros bens”, conclui ele.

Vale para refletir.

Fonte: G1