Ciência cruel: pesquisadores provocam autismo em macacos para estudar tratamentos

Uma técnica de edição de genoma, aplicada em macacos por cientistas chineses e norte-americanos, fizeram com que os animais desenvolvessem uma mutação ligada ao autismo. Condenados a sofrer as consequências de serem forçados a ter uma síndrome, os macacos foram explorados pela ciência para o estudo de tratamentos médicos para humanos.

Foto: Reprodução/Pixabay

Após terem a mutação desenvolvida, os animais passaram a ter um comportamento semelhante ao dos humanos com autismo, acordando várias vezes à noite, apresentando dificuldade de relacionamento com outros macacos e promovendo atos repetitivos, o que demonstra sofrimento intenso. Após os animais serem submetidos a exames, ficou comprovado também que eles apresentaram uma atividade menor no thalamus, região do cérebro responsável por questões sensoriais e motoras.

O resultado do experimento cruel foi publicado na segunda-feira (12) na revista científica Nature. As informações são do portal G1.

Os pesquisadores explicaram que um dos genes que podem estar associados ao autismo é o Shank3 e que a proteína codificada por ele é encontrada na sinapses – isso é, na ligações entre os neurônios -, especialmente na parte do cérebro responsável pela coordenação motora, à motivação e ao comportamento.

Pesquisadores de centros de estudo chineses e do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) usaram uma técnica chamada de CRISPR e localizaram a sequência do DNA que teria que ser modificada, para editá-la. Dessa forma, provocaram uma mutação no Shank3, fazendo com que os macacos tivessem a carga genética associada à síndrome.

Ratos também já foram vítimas deste tipo e experimento. No entanto, como eles não têm o córtex pré-frontal – região relacionada à concentração e à interpretação de sinais sociais – muito desenvolvido, como os primatas, os cientistas não obtiveram o resultado esperado.

Além de serem extremamente cruéis, tanto no caso dos macacos quanto dos ratos, os experimentos também são desnecessários e tendem a ser ineficientes. Os pesquisadores ainda não têm garantia de que eles levarão à descoberta de remédios seguros e eficazes.

Analisando apenas a eficácia dos testes científicos em animais, e não a questão ética, o médico Ray Greek chegou à conclusão de que eles são completamente dispensáveis. “A pesquisa científica com animais é uma falácia”, afirmou o especialista, em entrevista à revista Veja.


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Caça ao javali não resolve problema de desequilíbrio ambiental, diz professor

A justificativa dos defensores da caça ao javali é que o animal causa um desequilíbrio ambiental, afeta lavouras e, por isso, precisa ser caçado como forma de controle. A alegação, no entanto, é refutada pelo professor Adroaldo José Zanella, do Centro de Estudos Comparativos em Saúde, Sustentabilidade e Bem-Estar Animal do Departamento de Medicina Veterinária Preventiva e Saúde Animal da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da USP. Segundo ele, matar os javalis não resolve o problema.

Foto: Simply Viola on Visualhunt / CC BY-NC-SA

O professor explicou ao Jornal da USP no Ar que “os dados sobre javalis ainda são muito modestos para fazer uma tomada de decisão inteligente, mas a caça como medida de mitigação não vai funcionar”. Ele afirmou que falta uma estratégia nacional e até mesmo internacional para elaboração de um plano estratégico em relação ao assunto. Para o médico veterinário, a solução é “atuar para a fonte de controle reprodutivo”.

“O primeiro passo é entender como essa espécie opera”, afirmou Zanella. “A fundamentação da estratégia na minha opinião seria um edital público”, disse.

Atualmente, o javali é o único animal cuja caça é permitida no Brasil. Em março, o Ibama publicou uma nova portaria, por meio da qual, entre outras questões, informatizou o sistema de autorizações para caçadores e regulamentou a exploração de cachorros para a caça ao javali, colocando os cães em risco.

O professor explicou que “o javali, que é ancestral do porco doméstico, tem essas características fenomenais de adaptação: você encontra suínos e javalis nas áreas do Ártico e do Antártico, então eles trazem essa capacidade de se ajustar aos ambientes humanos”.

Os javalis foram trazidos ao Brasil para serem explorados e mortos para consumo humano. A proposta, no entanto, não seguiu adiante e esses animais foram abandonados na natureza e acabaram se reproduzindo e se dispersando pelo país. Com fome, eles entram em plantações e comem os vegetais, o que tem feito com que produtores rurais apoiem que eles sejam mortos.

No entanto, a proposta de manter a caça ao javali e, cada vez mais, facilitá-la, não só é ineficaz, como mostrou o professor, como também é cruel e coloca em risco outros animais. Isso porque espécies nativas, como a queixada e o cateto, frequentemente são confundidas com javalis pelos caçadores, que também matam outros animais de forma proposital.