Vaca agoniza presa à lama e é sacrificada em Brumadinho (MG)

Duas vacas ficaram atoladas na lama no Córrego do Feijão, em Brumadinho (MG), após uma barragem da Vale ceder. Uma delas foi sacrificada neste domingo (27) após ser desenganada pelos veterinários e o corpo foi deixado na própria lama. A outra ainda espera o resgate. Os animais estão no local, sem água e sem comida, desde a última sexta-feira (25).

Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo

A aproximação dos voluntários da causa animal foi bastante difícil. Isso porque funcionários da mineradora e policiais não queriam autorizar o resgate das vacas. Na manhã do domingo, o risco de novo rompimento de barragem impossibilitou os trabalhos do Instituto Luísa Mel, do grupo Anjos do Asfalto e de voluntários da Eco Ação. As informações são do portal O Globo.

Após a suspensão do alerta de risco, no entanto, a situação permaneceu difícil para os voluntários. Isso porque, no período da tarde, segundo relatos de moradores, a Vale mandou colocar tapumes para impedir o acesso ao local. Indignado, um grupo de pessoas arrancou os tapumes e os usou para calçar a lama e chegar aos animais.

“Tantas vidas humanas foram perdidas, nos deixem salvar ao menos esses pobres animais”, disse Magda Lima, que perdeu amigos com o rompimento da barragem.

Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo

Durante a ação dos voluntários da causa animal, uma funcionária da Vale, que não foi identificada, pediu ao pé do ouvido de um policial que o acesso aos animais fosse novamente bloqueado no dia seguinte. A mulher e os policiais alegam temer pela segurança da população.

“Dizem que a gente está atrapalhando. Mas só querem colocar um tapume na tragédia. Sabemos que há risco, mas nossa revolta é maior”, afirmou Daniele Fernandes, que também perdeu amigos.

No decorrer do dia, a Cruz Vermelha e a ONG Sea Shepard chegaram ao local, trazendo um guincho, para ajudar. Um helicóptero do Corpo de Bombeiros também foi até o Córrego do Feijão. Os militares, no entanto, afirmaram que a aeronave não suportaria o peso da vaca. O animal foi, então, desenganado por uma veterinária. Porém, até o início da noite, voluntários trabalhavam para tentar salvá-la.

De acordo com a moradora Silvana Gonçalves, as duas vacas foram parar no local após serem arrastadas pela lama.

Barragem da Vale se rompe em Brumadinho (MG) e causa destruição

Uma barragem da Vale se rompeu em Brumadinho (MG) nesta sexta-feira (25) na Mina Feijão. A região ficou tomada por um mar de lama, que foi registrado em fotos e vídeos (confira abaixo). Dezenas de animais foram encontrados atolados na lama e outros milhares devem ter perdido a vida nesta tragédia que devastou o meio ambiente.

(Foto: Corpo de Bombeiros/Divulgação)

O rompimento da barragem acontece apenas pouco mais de três anos após a cidade mineira de Mariana viver a maior tragédia ambiental já registrada no Brasil. Em novembro de 2015, a barragem de Fundão, da Samarco, empresa de propriedade da Vale e da BHP, rompeu-se e matou 19 pessoas, além de causar imenso prejuízo para a fauna e flora local. Na época, a lama avançou sobre a bacia do rio Doce e chegou ao litoral do Espírito Santo. As informações são do portal El País.

Para o desastre de Brumadinho, a Vale ativou o Plano de Atendimento a Emergências para Barragens e enviou uma equipe para sobrevoar a área atingida pela lama para diagnosticar a dimensão do problema. De acordo com a empresa, a prioridade “é preservar e proteger a vida de empregados e de integrantes da comunidade”. A tragédia fez com que as ações da Vale na Bolsa de Valores de Nova York caíssem 8% nesta sexta-feira.

(Foto: Corpo de Bombeiros/Divulgação)

O Ministério do Desenvolvimento Regional emitiu nota por meio da qual afirmou que está “monitorando e em contato constante com as equipes de Defesa Civil”. A pasta informou ainda que o secretário nacional de Proteção e Defesa Civil, coronel Alexandre Lucas, está à caminho de Brumadinho.

O secretário de Estado de Meio Ambiente, Germano Vieira, disse que toda a equipe de emergência foi enviada à cidade. Seguiu para Brumadinho também um grande contingente de bombeiros e uma equipe do Ibama.

(Foto: Reprodução)

Uma das preocupações em relação à tragédia se refere ao fato de que o rio em que houve o desabamento desemboca no São Francisco.

O caso repercutiu nas redes sociais, causando indignação nos internautas. “Mais uma vez será o meio ambiente que ‘pagará essa conta'”, escreveu um usuário do Facebook. “Mais um descaso que se transforma em tragédia”, disse outro.

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Barragens com risco de rompimento

A Agência Nacional das Águas (ANA) divulgou um relatório no final de 2018, com dados levantados em 2017, sobre as barragens brasileiras. De acordo com o documento, o número de barragens no Brasil com risco de rompimento subiu de 25 para 45 em um ano.

No país, há 24 mil barragens utilizadas para diferentes finalidades, como acúmulo de água, de rejeitos de minérios ou industriais e para geração de energia, segundo informações do jornal Gazeta Online.

Das 45 barragens que correm risco de rompimento, três estão localizadas no Espírito Santo. No entanto, elas não são de rejeitos de minério. As barragens apresentam problemas estruturais, como rachaduras e infiltrações e são de responsabilidade do poder público.

A barragem da Mina do Feijão, que se rompeu em Brumadinho, não estava na lista das barragens vulneráveis. Porém, segundo o relatório, o estado de Minas Gerais possuía em 2017 cinco barragens com risco de rompimento. Na Grande Belo Horizonte foram consideradas vulneráveis pela ANA as seguintes barragens: Mina Engenho I e II, da Mundo Mineração, em Nova Lima, Região Metropolitana de BH; as barragens B2 e B2 auxiliar, da Nacional Minérios, em Rio Acima, também na Grande BH; e a barragem Água Fria, em Ouro Preto, região Central de MG.

De acordo com o levantamento, 14 incidentes ou acidentes com barragens foram registrados em 2017 no Brasil. Três deles ocorreram em Minas Gerais. Os dados pertencem ao Relatório de Segurança de Barragens 2017 (RSB), coordenado pela Agência Nacional das Águas.