Maior felino das Américas, a onça-pintada está criticamente ameaçada de extinção na caatinga

Onça-pintada (Panthera onca) em foto de junho de 2012. Espécie é o maior felino das Américas e está vulnerável no Brasil. — Foto: WWF / AFP

A população do maior felino das Américas está caindo. A onça-pintada, um carnívoro que pode chegar a até 135 kg e 75 cm de altura, já é considerada oficialmente extinta nos Estados Unidos e está sob ameaça em outros países. No Brasil, a espécie é vulnerável, mas o status de avaliação muda conforme o bioma no qual ela vive. A situação é mais delicada na caatinga, onde o animal está criticamente ameaçado de extinção.

As espécies ameaçadas são foco da segunda série “Desafio Natureza”, que já abordou as ações feitas para preservar a arara-azul-de-lear no sertão da Bahia.

A onça-pintada e a arara-de-lear fazem parte das 1.173 espécies que vivem sob risco de extinção no Brasil. A caatinga abriga 182 desses animais – 46 são espécies endêmicas, ou seja, só existem neste lugar do mundo.

Para ajudar na preservação da onça-pintada na caatinga, o governo federal criou em abril de 2018 o Parque Nacional do Boqueirão da Onça, com 347 mil hectares, e a área de proteção ambiental (Apa), de 505 mil hectares.

A presença deste tipo de felino no Boqueirão da Onça foi descoberta somente em 2006. Até então, acreditava-se que apenas a onça-parda (Puma concolor) vivia na região e que a pintada se restringia a outras áreas de caatinga. A comprovação da existência desta espécie naquele local específico fez com que o pedido de criação do parque nacional ganhasse mais força – uma discussão que já se arrastava há pelo menos 14 anos.

A importância dos animais ‘topo de cadeia’

Conhecida cientificamente como Panthera onca (sem cedilha), a onça-pintada é uma das prioridades da Red List (Lista Vermelha, em inglês), da União Internacional de Conservação da Natureza (IUCN). No Brasil, ela está presente em quase todos os biomas e está ameaçada em todos eles.

Embora o número de onças-pintadas seja igualmente crítico na mata atlântica e na caatinga, a situação é pior no bioma do semiárido porque, ele mesmo, não é alvo de conservação.

No caso das onças, que são territorialistas, a preservação do ambiente está diretamente ligada à manutenção da espécie, que pode ocupar até 495 km². Mas, segundo pesquisadores, 50% da área de vegetação nativa da caatinga já foi devastada.

Além disso, a escassez da cobertura vegetal pode afetar as nascentes da região, tornando o acesso à água ainda mais difícil para a onça.

A estimativa é de que existam menos de 250 indivíduos na região.

“É uma espécie ecologicamente importante porque é topo da cadeia alimentar. A extinção desta espécie leva ao aumento de outras, que antes eram suas presas, e provoca o desequilíbrio ambiental”, diz Rogério Cunha, coordenador substituto do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros (Cenap), ligado ao Ministério do Meio Ambiente.
Um exemplo, conta Cunha, foi o que aconteceu no Oeste de São Paulo. Um estudo de impacto ambiental sobre a construção de uma hidrelétrica mostrou que as onças-pintadas, que antes viviam na região, foram mortas por fazendeiros após atacar animais criados para consumo humano. Com o sumiço das onças, aumentaram as capivaras, que antes eram suas presas.

“As onças foram acompanhadas com coleiras [de monitoramento]. Com isso, vimos que as que foram para as áreas secas [após o alagamento] começaram a atacar o gado, porque as presas que ela comiam morreram afogadas no lago [da hidrelétrica]. Os fazendeiros passaram a matar as onças. A população de capivaras aumentou de forma assombrosa [porque não tinha mais onças para caçá-las], passaram a comer as plantações, aumentaram os casos de febre maculosa [transmitida pelo carrapato-estrela, que se hospeda na capivara]. Foi um efeito cascata”, explica Cunha.

Ameaças

A devastação ambiental e o avanço da agricultura são ameaças constantes para as onças em todos os biomas. Conforme a presença humana avança sobre as áreas nativas, a onça recua para se afastar do convívio.

“Ela é muito sensível à presença humana. Precisa de grandes áreas nativas bem preservadas para sobreviver. É um animal solitário e territorialista que precisa do seu espaço”, diz Cláudia Bueno de Campos, bióloga e coordenadora do Programa Amigos da Onça, do Instituto para a Conservação dos Carnívoros Neotropicais – Pró-Carnívoros.
Na caatinga, a criação extensiva dos rebanhos de ovinos, caprinos e bovinos traz um novo agravante: o confronto com os humanos, que temem o ataque das onças aos animais.

“São rebanhos criados soltos na caatinga, para se alimentar da própria mata nativa, principalmente na época de seca. E, como eles andam bastante, isso pode fazer com que os animais sejam perdidos pelos criadores, seja por doença, ataque de cobra, furto de outros criadores, ou até mesmo o ataque das onças. Mas, por causa da fama que os predadores naturalmente têm, a culpa de todas as perdas sempre sobra para elas”, diz.

Um projeto da Pró-Carnívoros tenta estimular a população a fazer a criação semi-intensiva, com áreas delimitadas para o rebanho. Mas o desafio é longo. A cultura da caça atinge até os mais jovens, que veem na morte do animal um ato de bravura.

Fonte: G1

Mata paulista tem flagrante inédito de onça com filhotes

A imagem inédita feita em dezembro do ano passado e divulgada apenas agora empolgou todos os envolvidos com o trabalho de preservação e regeneração do Parque das Neblinas, área de seis mil hectares situada entre as cidades paulistas de Mogi das Cruzes e Bertioga.

Uma onça-parda surge tranquilamente com seus dois filhotes andando pela mata. Os poucos segundos de passeio dos felinos durante o dia são a prova de que o local tem oferecido as condições ideais para que os animais vivam e se desenvolvam.

(Foto: Reprodução / G1)

“O pessoal ficou muito feliz. O registro (da onça-parda com dois filhotes) é uma manifestação inequívoca de que o parque está dando suporte para a reprodução”. afirmou Paulo Groke, diretor de Sustentabilidade do Instituto Ecofuturo.

Ainda não se sabe exatamente quantos indivíduos da espécie circulam pelo lugar, mas há o interesse em se fazer um inventário para chegar a esse número. Antes, porém, o objetivo é determinar a população de antas por ali, que aparecem com frequência.

De qualquer forma, já há registros suficientes para mostrar que a área tem uma biodiversidade importante e bem próxima da Grande São Paulo.

Para avançar nas informações sobre as populações do lugar, o grupo que administra a área – que é particular – afirma que está de portas abertas para os pesquisadores e investidores nesse setor, oferecendo estrutura, segurança e menos obstáculos burocráticos para que os trabalhos sejam realizados.

O Parque das Neblinas cumpre um importante papel na conservação dos recursos naturais da Serra do Mar paulista, contribuindo para a proteção do maior contínuo de Mata Atlântica do Brasil, o Parque Estadual da Serra do Mar e a Serra de Paranapiacaba.

“O mais importante é reconhecermos o valor dessas áreas florestais próximas às grandes cidades. Além de garantir uma ampla biodiversidade, esses locais também promovem a qualidade de vida do entorno. Elas mostram que são capazes de abrigar diversas espécies, todas vivendo em condições ideais”, disse Paulo Groke.

O monitoramento realizado com dez câmeras espalhadas pela mata existe há pelo menos três anos e, além da onça-parda e seus dois filhotes, já mostrou diversas outras espécies, como uma jaguatirica, um gato-mourisco, diversas cuícas, queixadas (porco-do-mato) e antas.

No caso das onças, o registro mostra que o trabalho desenvolvido tem obtido resultados positivos: os animais apresentam um ótimo estado de saúde, o que significa perfeita adaptação ao meio.

“O próprio processo de reprodução exige uma energia muito grande e as imagens demonstram que os felinos estão em plenas condições”, explicou Paulo Groke.

Com seis mil hectares, sendo mil com florestas de cobertura muito próximas da vegetação original, o parque conserva a bacia do Rio Itatinga e promove pesquisa científica, manejo florestal, educação socioambiental, proteção da biodiversidade, restauração da Mata Atlântica e visitação.

São 1.253 espécies da biodiversidade identificadas e 58 pesquisas científicas já realizadas. No lugar, ainda existem 470 nascentes.

Preocupação

Mas, além de belas imagens, o monitoramento também capturou indícios de problemas que precisam de solução.

Imagens mostram pessoas andando pelo parque em direção a áreas onde existe um plantio de palmeiras juçara, muito visadas comercialmente. O número delas chegou a apresentar queda e, supostamente, dá a entender que as pessoas poderiam estar atrás desse material de forma ilegal.

Para responder a isso, a empresa que administra a área já promoveu o plantio de mais de 7 milhões de sementes da palmeira juçara, que é considerada vital para o equilíbrio da Mata Atlântica.

Fonte: G1

Onça resgatada passa por readaptação para voltar à natureza em MS

Uma onça-pintada resgatada com 39 quilos se recuperou da condição precária em que foi encontrada e foi encaminhada para o Refúgio Ecológico Caiman, uma fazenda na qual o animal passará por um processo de readaptação antes de ser devolvido à natureza.

(Foto: Pixabay / Ilustrativa)

O tratamento que permitiu que o animal se recuperasse e ficasse saudável foi feito por profissionais do Centro de Reabilitação de Animais Silvestres (Cras). As informações são do portal O Pantaneiro.

No refúgio, a onça deve ficar em um recinto provisório, em quarentena, para que possa retornar ao habitat.

De acordo com a bióloga e coordenadora do Projeto Onçafari, Lilian Helaine, o deslocamento da onça até a fazenda foi complicado, mas o animal, que é macho, chegou tranquilo e foi colocado em local específico.

“Ele é um cara que não está acostumado a isso ainda, não entendeu que tem uma área de mata para explorar aqui”, explicou a bióloga.

Batalhão resgata onça pintada em Itacoatiara (AM)

Policiais do Batalhão Ambiental posam com onça resgatada em Itacoatiara, no AM — Foto: Divulgação

Uma onça pintada foi resgatada pelo Batalhão Ambiental na última quinta-feira (24) em Itacoatiara, a 165 Km de Manaus.

Segundo a Polícia Militar, o animal estava em boas condições físicas e sem sinais de maus-tratos.

A onça animal foi capturada inicialmente por ribeirinhos, que mantiveram o felino em um lugar seguro até a chegada da polícia ambiental.

Fonte: G1

Onça é encontrada morta esmagada e sem cabeça e patas

Foto: Divulgação/Franklin Moura

Uma onça-pintada foi encontrada morta com sinais de esquartejamento e atropelamento na rodovia BR-174, estrada que liga Manaus a Boa Vista. O animal estava sem a cabeça e sem as patas.

Os registros foram feitos pelo repórter cinematográfico Franklin Moura. Segundo ele, o corpo estava no acostamento do Km 350, sentido Boa Vista-Manaus. Ele conta que viu o animal morto enquanto viajava da capital de Roraima rumo a Manaus e acredita que a onça tenha sido atropelada.

“Voltava de Boa Vista quando vi ali jogada e parei o carro. Foi umas 10h40 de ontem, mas acho que ela foi atropelada porque ainda tinha uns rastros de sangue no chão e ela estava bem ‘esbagaçada’ na parte de trás. Não tinha muito tempo (que havia sido atropelada), porque a carne estava mole e não fedia ainda”, relatou Franklin.

Ainda segundo o repórter, o animal estava sem a cabeça e sem as patas. “Provavelmente o animal foi atropelado e alguém passou e tirou a cabeça”, disse ele, contando que o suposto acidente não chegou a atrapalhar o trânsito.

Fonte: A Crítica

Onça é encontrada dormindo em telhado de empresa de Americana (SP)

Uma onça parda foi encontrada dormindo no telhado do prédio de uma empresa, no bairro Antonio Zanaga, na última sexta-feira (4), em Americana (SP). Dois seguranças chegavam ao expediente quando viram o animal.

Foto: Reprodução/EPTV

Os funcionários acionaram o Corpo de Bombeiros, que resgatou o animal junto de uma equipe de veterinários do grupo Corredor das Onças. De acordo com as equipes, quando chegaram ao local, o animal ainda dormia.

Segundo os veterinários, a onça é uma fêmea, com dois anos de idade e cerca de 19kg. O animal foi solto em uma área verde da região, ainda na sexta.

Fonte: G1

Onça-pintada da Amazônia vira alvo da medicina tradicional chinesa

Maior felino do continente americano se tornou alternativa para medicina chinesa (Leonardo Prest Mercon Ro/iStockphoto/Getty Images)

Em setembro deste ano, a ONG Proteção Animal Mundial divulgou um relatório amedrontador: onças-pintadas na Floresta Amazônica do Suriname foram caçadas para abastecer o mercado da medicina tradicional asiática. Ao longo de dez meses, a organização de defesa dos animais investigou a prática ilícita a revelou a consolidação do novo mercado que ameaça a sobrevivência do maior felino das Américas. O documento confirmou o que já havia sido identificado pela ONG ambientalista WWF em 2010. Quase uma década atrás, a instituição denunciou traços do crime dentro do Brasil e agora o receio é que a prática se espalhe por toda a Amazônia antes que seja possível colocar em prática políticas conservacionistas para preservar a espécie ameaçada de extinção.

No estudo da Proteção Animal Mundial, foram identificados três produtos feitos com as partes do felino: uma substância parecida com uma pasta (produzida com pedaços que não são aproveitados em outros produtos, ao contrário da pele, das unhas e dos dentes), artefatos com dentes e unhas (encontrados principalmente em lojas de joias em Paramaribo, capital do Suriname), e a carne (comunidades chinesas e filipinas residentes no Suriname comem a carne da onça, às vezes em sopas, e usam os ossos para produzir vinho). De acordo com a diretora executiva da Proteção Animal, Helena Pavese, a investigação começou após a ONG receber uma denúncia sobre o crime contra a fauna. “O trabalho foi feito com visitas de campo, entrevistas com agentes de governo, ambientalistas e moradores das comunidades. É um problema que acontece de fato, apesar de não ser tão explícito, porque a caça e a comercialização são proibidas no país”, explicou Pavese.

Segundo as ONGs, as onças se tornaram o novo alvo da medicina asiática para atender a demanda que não é suprida com artefatos feitos com partes de tigres, pois estes foram caçados intensamente. A pasta de onça foi o único produto diretamente relacionado com a exportação para a China, despachada em navios dentro de tubos. A relação com a América do Sul não surgiu simplesmente pela necessidade de encontrar um novo felino místico. Entre 2000 e 2015, em 13 países (Bangladesh, Butão, Camboja, China, Índia, Indonésia, Laos, Malásia, Mianmar, Nepal, Rússia, Tailândia e Vietnã), a ONG de proteção animal Traffic mostrou no relatório Reduzido a pele e ossos, divulgado em 2016, que a população de tigres foi reduzida a 3 800 animais soltos na natureza. No começo do século 20, existiam cerca de 100 000 exemplares da espécie na vida selvagem. As relações comerciais entre a China e os países do continente sul-americano se estreitaram nos últimos anos, o que aumentou o número de imigrantes para a região e, consequentemente, a demanda pelos produtos ilegais. De acordo com o estudo Matado por uma cura, relatório produzido também pela Traffic, em 1994, todas as partes de um tigre são usadas em tratamentos, até mesmo os bigodes, a gordura, a vesícula e a pele. Os motivos também são diversos, como a busca para o tratamento contra vômito, mordida de cachorro, dor de dente, vista cansada e doenças mentais. Os ossos dos tigres são os mais valiosos e o úmero é o mais valorizado. Os países com maior número de apreensões foram China, Indonésia e Tailândia, onde o tigre é considerado o animal mais poderoso e teria a função de curar dores corporais, reumatismo, fraqueza e paralisia muscular.

Com relação à caça no Brasil, o especialista em Amazônia do GreenPeace, Rômulo Batista, afirmou que a motivação pela demanda asiática ainda não é tão comum nos relatos, mas o felino é extremamente ameaçado por fatores internos. “A medicina tradicional é mais uma ameaça a esse animal guarda-chuva. Ele é um predador de topo de cadeia que garante uma série serviços de conservação”, afirmou. Batista explicou que há várias ações em andamento que pressionam a população desses animais no Brasil e os colocam em risco. A onça sobrevive por se alimentar de outros animais, normalmente os indivíduos mais velhos ou doentes de outras espécies, e funciona como parte do equilíbrio do ecossistema, por ser um predador que mantém as populações saudáveis. Contudo, há no Congresso um projeto de lei para liberar a caça esportiva no país, que colocaria em risco a oferta de comida para o felino. A espécie precisa de grandes áreas de habitat para viver, o que exige a criação, manutenção e conservação de Unidades de Conservação e Terras Indígenas, mas a política de novas áreas protegidas ficou estagnada e o desmatamento ilegal dentro delas quase dobrou nos últimos dez anos. Há medidas para facilitar a mineração, a instalação de hidrelétricas e o agronegócio em áreas protegidas, atividades que abrem caminho para o tráfico de animais. “É um pacote de ações que mostra um futuro cruel para esses animais”, declarou.

Com a presença de ações humanas em áreas de floresta intocadas, a onça tende a procurar por alimentos em fazendas, como gado, porcos e galinhas, o que a deixa mais exposta à caça. A partir disso, há o tráfico motivado pelo oportunismo, pois o fazendeiro que matar o animal para defender a sua propriedade pode tirar proveito da espécie que é valorizada no mercado, enquanto há o tráfico encomendado, quando criminosos saem em busca dos animais com o objetivo de vender suas partes clandestinamente. Em 2016, um fazendeiro foi preso, e liberado após pagar fiança, por caçar onças no Mato Grosso, sob alegação de que elas atacavam o gado de sua propriedade. Em maio deste ano, a Polícia Federal prendeu duas pessoas que caçavam e traficavam animais, incluindo a onça, no Pará. Eles lucravam 1 000 reais por cada onça abatida. No Mato Grosso, a bióloga da USP Francesca Belém Lopes Palmeira estudou o prejuízo econômico causado por ataques de onças-pintadas a animais de fazendeiros. Palmeira afirmou que a perda financeira é de menos de 1%, mas o impacto causado na população é muito forte, o que faz com que os prejudicados queiram caçar o animal. Ainda, a bióloga alerta para uma prática identificada no trabalho de campo. Tradicionalmente, a região tinha uma espécie de caçador especialista em onças, procurado pelos fazendeiros quando ocorria um ataque aos animais de criação. Contudo, sabendo que a onça tem o hábito de retornar à carcaça para se alimentar novamente, alguns fazendeiros começaram a deixar veneno nos restos dos animais mortos. “Por pior que fosse, antes havia apenas um caçador na região. Agora, qualquer dono de sítio consegue comprar veneno nas lojas de agropecuária. Além desse perigo, a onça e todos os outros animais que passarem por ali podem morrer por envenenamento”, afirmou.

No Instituto Mamirauá, uma Reserva de Desenvolvimento Sustentável com área total de 1 124 000 hectares, o ecólogo e diretor técnico científico da instituição, Emiliano Esterci Ramalho, acompanha o monitoramento de onças-pintadas desde 2004. De acordo com Ramalho, os estudos têm o objetivo de entender a ecologia do felino para desenvolver estratégias de conservação e melhorar a vida das pessoas que convivem com as onças. “A caça à onça acontece na Amazônia inteira. Quando um ribeirinho mata uma onça na beira do rio, a ação, que também é ruim e trabalhamos para combate-la, faz parte do ciclo da floresta e o animal abatido acaba sendo substituído por outro exemplar da espécie. O problema é quando ocorre a caça predatória para abastecer um mercado negro”, explicou. Quando há uma motivação comercial, os caçadores entram nas áreas não habitadas por humanos na floresta e aonde vivem as chamadas populações fontes dos animais. Estas são as que garantem a continuidade das espécies, pois se reproduzem e geram filhotes.

De hábitos solitários, as onças permanecem em grupos de até quatro indivíduos quando uma fêmea está cuidando de seus filhotes. Quando crescem, eles dispersam para novas áreas, vivem separadamente e buscam regiões com oferta de alimento suficiente para evitar brigas com outras onças, até chegar a época de reprodução e procurarem as fêmeas para o acasalamento. Enquanto houver comida para todos, os conflitos acontecem principalmente pela disputa por fêmeas. Por isso, Ramalho afirmou que a medida para a sobrevivência destes felinos é a manutenção de extensas áreas de conservação. Com a floresta menor, há menos alimento e os animais mais jovens correm o risco de definirem novos territórios em áreas próximas a fazendas com animais domesticados, como gado, porcos e galinhas, e ficarem vulneráveis. “No Brasil, os relatos sobre a demanda para a medicina asiática ainda não indicam um problema grave, mas temos que ficar de olho porque ela pode vir a ser. Enquanto isso, precisamos de áreas protegidas, investimento em ciência e o reconhecimento das ONGs e das comunidades tradicionais para o desenvolvimento econômico do país com a floresta em pé”, afirmou. Em um artigo divulgado na revista científica internacional PLoS One no ano passado, Ramalho e uma equipe de pesquisadores demonstraram como a área de vida da onça-pintada aumenta de acordo com a fragmentação do habitat. Os felinos da Mata Atlântica, bioma com apenas 12% de floresta remanescente, percorreram quase o dobro de distância para manter uma área de vida.

Mesmo com os mais de 15 000 quilômetros entre a China e o Suriname, a distância deixou de ser um problema quando o acesso à internet se tornou comum. Como as denúncias são recentes, ainda não há análises suficientes sobre o tráfico de partes de onças-pintadas na internet, mas pesquisas feitas com outros grandes felinos demonstram o que pode acontecer. Um estudo da Traffic publicado no ano passado monitorou 112 palavras-chave, sendo 12 especificamente sobre tigres. A ONG mostrou que algumas buscas são literais, como “filhotes de tigre” à venda e “garras de tigre”. Os pesquisadores perceberam que os anúncios de tais produtos caíram de 2 000 por mês em 2012 para menos de 1 000 em dezembro de 2016, em 31 sites. Dentro do total de produtos de vida selvagem encontrados, os de marfim foram os mais populares, com 63,2%, seguidos por chifre de rinoceronte, com 18,1% e casco de tartaruga-do-pente, com 7,7%. Ossos de tigre representaram 4% do total de buscas, e ossos de leopardo 0,2%. Como a caça de onças-pintadas foi identificada recentemente, a ONG Proteção Animal, que investigou o assunto, afirmou que os dados coletados não podem ser divulgados por uma questão de segurança.

Empresas de tecnologia chinesas, como a Baidu.com e a Tencent, colaboraram com investigações na China. Apenas a Baidu detectou mais de 70 000 conteúdos sobre tráfico ilegal de vida selvagem. Uma única loja de antiguidades de Xangai postou 31 062 novos anúncios sobre produtos ilegais de vida selvagem entre 2012 e 2016, um terço de tudo que foi registrado. Em 2016, a Universidade de Kent rastreou a dark net em busca de produtos de vida selvagem em geral, mas não encontrou indícios do crime. A conclusão foi que a prática não existia no submundo simplesmente porque não havia fiscalização suficiente na superfície, tornando desnecessário para os criminosos se esconderem na dark web.

Mas no ano seguinte, em uma nova análise, a Interpol e a Universidade de Kent encontraram 21 anúncios de pequenos comerciantes, principalmente de chifre de rinoceronte, marfim de elefante e partes de tigre. Com isso, as instituições concluíram que o monitoramento da dark web é necessário, por mais que a prática não seja tão disseminada. No mesmo relatório Reduzido a pele e ossos, da Traffic, a ONG destacou como o comércio ilegal de vida selvagem na internet se tornou um desafio persistente nos últimos anos, principalmente por causa da capacidade de se transformar rapidamente, com amplo alcance e ao conectar pessoas. No estudo, as redes sociais, principalmente aquelas com recursos de acesso restrito, como o WhatsApp e o Telegram, facilitam a comunicação entre traficantes de forma indetectável por causa da criptografia de ponta a ponta.

O relatório compilou exemplos práticos do problema: em 2014, autoridades de Jacarta confiscaram uma peça de pele de tigre que um traficante havia comprado no Facebook e estava tentando revender; na China, entre julho de 2011 e julho de 2012, mais de 9 000 anúncios de produtos feitos com o felino foram encontrados em monitoramentos de rotina em 114 sites; entre 2012 e 2015, 252 caninos de tigres foram confiscados, em comparação a apenas 41 unidades entre 2008 e 2011; no mesmo período, as patas de tigres interceptadas aumentara de 18 para 31 unidades. Da mesma forma como acontece com a falta de informações sobre a caça de onças-pintadas na América do Sul, a Traffic destaca como não há informação suficiente disponível para determinar a extensão do crime organizado na internet e nas redes sociais. Contudo, tais plataformas facilitam a disseminação da prática criminosa. Este ainda não é o cenário que ameaça o maior felino da América do Sul, mas ele ilustra o triste caminho que poderá ser percorrido caso a ameaça não seja combatida enquanto há tempo para evitar o pior.

Este artigo foi produzido por Veja como parte do programa ‘Reportando o comércio online ilegal de vida selvagem’. O projeto é uma parceria entre a Thomson Reuters Foundation e a Iniciativa Global Contra o Crime Organizado, financiada pelo governo norueguês. Mais informações estão disponíveis em: http://globalinitiative.net/initiatives/digital-dangers. O conteúdo é de responsabilidade do autor.

Fonte: Veja