Apresentador de programa rural diz que é ridículo criar lei em defesa dos animais

Por David Arioch

“Ou seja, João Batista, daqui a pouco, aquela bactéria que te incomoda, nas vias intestinais, pode ser objeto de tutela” | Foto: Divulgação

O apresentador do programa rural “Notícias Agrícolas”, do canal Terra Viva (TV Bandeirantes), João Batista Olivi, disse na semana passada que é ridículo criar lei em defesa dos animais, em referência ao controverso Projeto de Lei da Câmara (PLC) 27/2018, que classifica animais como “sujeitos de direitos despersonificados”, embora não especifique quais espécies se enquadram na criação do “regime jurídico especial” e como isso realmente pode beneficiá-los.

“Uma pauta ridícula, uma pauta absurda. Enfim, uma lâmpada, uma caneta, não são mais objetos”, comentou Olivi em tom debochado, destacando que se animais devem ter direitos, objetos também. Em uma comparação bastante desleal e desproporcional, já que animais não humanos são passíveis de dor e capazes de desenvolver relações sociais complexas, o apresentador contou com o endosso do advogado e vice-presidente da Associação Paulista de Imprensa, Antônio Fernando Pinheiro Pedro.

“Ou seja, João Batista, daqui a pouco, aquela bactéria que te incomoda, nas vias intestinais, pode ser objeto de tutela. Ou seja, o STF, que hoje cuida até do regime prisional do Lula, de repente poderá acatar um mandado de segurança do promotor da esquina para que você não tome purgante, porque afinal você vai acabar atingindo uma bactéria inocente”, declarou o advogado.

Um ponto a se considerar é que essas críticas parecem distantes da realidade do PLC, já que o projeto alvo de polêmica não deve promover mudanças práticas na situação dos animais. Inclusive o relator Randolfe Rodrigues (Rede-AP) acolheu emendas de senadores pedindo a exclusão de animais utilizados em “manifestações culturais” e também em “atividades agropecuárias”.

Ainda assim, e provavelmente para fazer sensacionalismo, o apresentador e o advogado preferiram apelar à ignorância dos espectadores:

“Imagine, nossa avó, que tantas vezes vi destroncar a cabeça de uma galinha para gente comer, fazer aquela famosa canja, imagine, a velhinha hoje seria presa, porque o militante ambientalista da esquina poderia ver ela destroncando o animal e dizer que ela não pode tratar a galinha desse jeito. Afinal, ela é um ser que tem direitos e que está inserido na Lei de Crimes Ambientais”, satirizou Antônio Fernando.

Na prática, não há nada no projeto que realmente justifique essa observação irrealista, já que animais continuarão sendo mortos, consumidos e comercializados como produtos. “É o suprassumo da desumanização da norma legal. Ou seja, o ser humano faz lei pra ele, porque quem faz lei pra natureza é Deus. Mas agora estamos nos descuidando de nós próprios para fazer lei pra natureza”, criticou o vice-presidente da Associação Paulista de Imprensa.

Ou seja, para Antônio Fernando, e se valendo de uma colocação religiosa que não cabe quando se fala em legislação em um Estado laico, o ser humano pode usar e abusar do meio ambiente, sem que para isso haja qualquer implicação sob as leis humanas. O quanto isso faz sentido em um mundo civilizado? Simplesmente não faz.

“E estabelecemos relações humanas com animais que nos servem, que nos mantêm vivos”, continuou o advogado. Bom, se há pessoas que continuam vivas e saudáveis mesmo sem matar ou consumir animais tal colocação generalizada também é irrealista.

Em síntese, o que João Batista Olivi e Antônio Fernando Pinheiro Pedro fazem ao longo de mais de 40 minutos de programa é dissimular a realidade da defesa animal apelando para recortes sensacionalistas que usam como exemplo de “prejudicados” pessoas que nem mesmo participam do agronegócio.

Eles querem convencer o espectador de que a defesa dos direitos animais ataca diretamente o “suposto direito da sua avó de matar uma galinha para fazer uma canja”. Eles não dizem que a honesta luta pela defesa dos direitos animais, que deve se estender a todos os tipos de exploração animal, se pauta principalmente na realidade massiva da exorbitante matança de bilhões de animais para consumo por ano – e sabemos que quem mais lucra nesse sistema são os grandes agropecuaristas e os grandes frigoríficos.

E fazem isso simplesmente porque não dá pra conscientizar ou sensibilizar o espectador mostrando que na realidade eles estão simplesmente defendendo os interesses do grande agronegócio, que beneficia personalidades que surgem demonizando a luta pelos direitos animais.

Dar direitos aos animais abre brechas jurídicas que podem afetar a agropecuária from Notícias Agrícolas on Vimeo.


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PL propõe que animais sejam vistos como seres sencientes

Por Rafaela Damasceno

Será votado na próxima semana o projeto de lei que propõe tratar os animais como seres sencientes. Apelidado de “Animal não é coisa”, o projeto tem como objetivo reconhecer os animais como capazes de sentir dor, prazer, amor e vários sentimentos.

Cachorro atrás das grades

Foto: Diário da Manhã

Se o projeto for aprovado, os animais – domésticos e silvestres – perderão o status de “coisa” e passarão a ser sujeitos com direitos, sendo respeitados perante a lei. Diversos famosos se posicionaram a favor nas redes sociais.

A aprovação pode abrir caminho para outros projetos de bem-estar animal, como o aumento da punição do crime de maus-tratos (atualmente, a prisão varia de três meses a um ano).

Outros países já reconhecem os direitos animais em suas legislações, segundo o Diário da Manhã. Na Áustria eles perderam a definição de coisas desde 1988, depois veio a Holanda, em 2011, a França, em 2015 e Portugal, o mais recente, em 2017.

A votação ocorrerá na quarta-feira (7/08).


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Bruxelas reconhece animais como seres sencientes

Cecilia foi primeira chimpanzé libertada por Habeas Corpus. Foto: prensa.mendoza.gov.ar

O conceito de “senciência” vem sendo difundido aos poucos na tentativa de ampliar sua dimensão e atingindo a proteção animal, permitindo enxergar que se um não-humano possui a capacidade de sentir emoções ele é merecedor de uma tutela jurídica.

Recentemente o Parlamento de Bruxelas votou por unanimidade para reconhecer os animais, antes classificados como bens e bens imóveis, como uma categoria especial.

Com a nova legislação, os animais serão “seres vivos dotados de sensibilidade, interesses próprios e dignidade, que se beneficia de proteção especial”. A Bélgica também está considerando medidas semelhantes.

De acordo com a secretária de Estado de Bruxelas responsável pelo bem-estar animal, Bianca Debaets, “O objetivo final é que os animais se beneficiem, finalmente, do status legal que corresponde à sua natureza biológica”. As informações são da Animal Legal Defense Fund.

Além de Bruxelas, a França, Nova Zelândia e Quebec também alteraram suas leis para reconhecer animais como seres sencientes, em 2015.

Em setembro de 2018, a Eslováquia atualizou a definição de “animais” em seu Código Civil para refletir que eles são seres vivos, não coisas.Desde então, “os animais terão status e valor especiais como criaturas vivas que são capazes de perceber o mundo com seus próprios sentidos”

Outros países também incluíram disposições relativas à senciência animal, dignidade ou proteção em suas constituições, mais recentemente Áustria em 2013 e Egito em 2014 .

Infelizmente, nos EUA, os animais são classificados como propriedade e, na maioria das vezes, considerados “objetos” sob a lei. No entanto, algumas legislaturas estaduais abordaram a senciência animal. Por exemplo, como resultado da legislação que o Animal Legal Defense Fund ajudou a redigir e aprovar em 2013, a lei do Oregon reconhece que “os animais são seres sencientes capazes de sentir dor, estresse e medo”.

A primeira conquista

O grande marco da luta aconteceu 1993, com a criação do GAP Projeto Grandes Macacos, pelo filósofo australiano Peter Singer e por sua colega italiana Paola Cavalieri.

Cecilia foi primeira chimpanzé libertada por Habeas Corpus. Ela é a única sobrevivente de um grupo de quatro chimpanzés que morava no Zoológico de Mendoza, Argentina e foi transferida para Santuário de Grandes Primatas de Sorocaba, afiliado ao Projeto GAP, local que abriga cerca de 50 outros chipanzés.

Na prática

O efeito que esse reconhecimento tem na prática nem sempre é como o esperado como no caso do elefante, “Happy”, que mora no Zoológico do Bronx, em Nova Iorque, desde 1977, e ainda espera o julgamento de seu habeas corpus para obter a liberdade.

Já em alguns países como na Argentina, as decisões têm sido favoráveis aos animais. Uma sentença da Câmara Federal de Cassação Penal reconheceu o direito à liberdade de Sandra, um orangotango, sem necessitar de alteração legislativa, mas partindo de uma interpretação dinâmica do Direito.

Na Bahia, a proteção de um chimpanzé não obteve o mesmo êxito. O juiz Edmundo Lúcio, da 9ª Vara Criminal de Salvador, negou liminar em Habeas Corpus que pedia a transferência da chimpanzé chamada Suíça, que vive em uma jaula no zoológico de Salvador, para uma reserva ecológica do GAP. Um dos argumentos do promotor Heron José Santana foi de que “a ciência já provou que os chipanzés têm capacidade de raciocínio tal qual o homem, portanto, trata-se de uma pessoa que não pode permanecer enjaulada”.

Com vitórias e derrotas, sem dúvidas, estamos na direção certa pelo fim da escravidão animal.

Califórnia muda natureza jurídica dos animais em casos de divórcio

O estado da Califórnia aprovou uma nova lei que mudará a forma como animais são tratados em casos de divórcio. A medida fornece aos juízes o poder de considerar o que é do melhor interesse do animal em casos de divórcio, em vez de tratá-los da maneira como foram tratados pelos tribunais no passado – como propriedade física. A lei entrará em vigor no primeiro dia de janeiro do ano de 2019.

um cachorro preto com a língua pra fora

Foto: Getty Images

“Estou muito animado”, disse David Favre, professor de direito animal na Faculdade de Direito da Universidade Estadual do Michigan. “É importante para seres humanos e animais”.

A lei foi patrocinada por Bill Quirk, membro da Assembléia Estadual, e assinada pelo Gov. Jerry Brown (Lucy, um borgie, é o primeiro-cão do estado e Cali, um bordoodle, é o primeiro-cão adjunto). A medida permite que os juízes considerem “o cuidado com o animal doméstico” e criem acordos de custódia compartilhada.

A lei “deixa claro que os tribunais devem ver a custódia de animais de maneira diferente da propriedade de um carro, por exemplo. Ao fornecer orientação mais clara, os tribunais concederão a custódia ao que for melhor para o animal”, disse Quirk após a assinatura do projeto.

“Tratar um animal doméstico como propriedade não fazia sentido para mim”, disse Quirk à NBC News. “Na verdade, tivemos juízes que disseram que você pode vender o cachorro e dividir os lucros.”

Especialistas legais disseram que a lei significa que os juízes podem levar em consideração fatores como quem passeia, alimenta e brinca com o animal doméstico ao decidir com quem o animal deve viver.

“Antes era uma questão de quem é ‘dono’ do cachorro e como você distribui a ‘propriedade'”, disse Favre. “Mas animais não são a mesma coisa que porcelanas e sofás. Eles são como crianças, pois são seres vivos que têm suas próprias preferências.” E como com as crianças, ele disse, o divórcio pode ser “um trauma para os animais também”.

A lei não se aplica apenas aos cães – ela define “animal doméstico” como “qualquer animal próprio da comunidade e mantido como animal doméstico”.

Uma pesquisa nacional da Academia Americana de Advogados Matrimoniais realizada em 2014 constatou que a grande maioria das lutas de custódia de animais – 88% – tinha a ver com cães, enquanto gatos eram a fonte de conflitos em 5% do tempo e cavalos 1%. Os 6% restantes foram listados como “outros” e incluíam uma iguana, python e uma tartaruga de 60 quilos.

Casais têm lutado por animais domésticos nos tribunais há décadas, com alguns juízes levando a questão mais a sério do que outros.

Em 2000, Stanley e Linda Perkins entraram em uma luta legal de dois anos em San Diego por sua cadela Gigi, uma mistura de pointer e greyhound. A batalha pelo divórcio, que custou quase 150 mil dólares, incluiu depoimentos de um especialista em comportamento animal e uma apresentação em vídeo, um “Dia na Vida de Gigi”. Mostrou Gigi dormindo sob a cadeira de Linda Perkins e abraçando-a. Ela acabou ganhando a custódia de Gigi, e Stanley Perkins encontrou outro cachorro da mesma raça.

Mas a falta de leis definindo os direitos animais domésticos levou à confusão e aos animais sendo tratados como propriedade regular. “Não há muitos juízes dispostos a trabalhar nesse ramo”, disse Favre.

Aquele que conseguiu foi o juiz Matthew Cooper da Suprema Corte do estado de Nova York, que deu sinal verde a um julgamento de custódia de animais domésticos em 2013 por causa de um mini-dachsund chamado Joey.

“As pessoas que amam seus cães os amam para sempre”, escreveu Cooper em sua decisão. “Mas com as taxas de divórcio em níveis recordes, o mesmo nem sempre pode ser dito para aqueles que se casam.”

Favre disse que a lei da Califórnia é um bom primeiro passo para lidar com inconsistências na lei, que, fora dos casos de divórcio, pode fornecer proteção legal extra para animais domésticos. “Existem leis anti-crueldade”, observou ele. “Você não pode ser preso por espancar seu sofá.”

A lei é a terceira do seu tipo na nação. O Alasca foi o primeiro a aprovar uma lei de “melhor interesse” para animais domésticos em 2017, e o Illinois aprovou uma lei similar no início deste ano.

“É um estatuto importante”, disse David Schaffer, advogado matrimonial de Chicago. “Muitos juízes viam animais domésticos apenas como uma propriedade, um ativo conjugal,” disse Schaffer.

Ele disse que a lei até agora tem sido uma benção e previu que impediria os casais de transformarem seus animais domésticos em barganha em casos de divórcio. “Pode impedir um cônjuge de machucar a outra pessoa através do animal doméstico”, impedindo-o de reivindicar o animal como uma propriedade, disse ele.

A lei de Illinois tem uma exceção para os animais de serviço. “Se eles fossem seus, eles continuam sendo seus”, disse Schaffer.

A lei da Califórnia é um pouco menos poderosa do que as versões do Alasca e de Illinois – ela diz que os juízes “podem” considerar os animais domésticos, mas não os obriga a isso.

Megan Green, advogada de direito familiar em Los Angeles, disse que alguns de seus colegas ainda têm preocupações de que a medida vá entupir os tribunais.

“Muitos profissionais de direito familiar não são a favor da nova lei” por causa de “como os casos de custódia litigiosa podem ser e como os tribunais podem ficar superlotados com casos de custódia”, disse ela.

A nova lei pode levar a situações “onde as pessoas que têm especialidades em sentimentos de animais” poderiam ser chamadas para testemunhar, semelhante a um avaliador de custódia para crianças.

Quirk disse que uma das razões pelas quais a lei foi tornada opcional para os juízes era garantir que eles não se atolassem em longas disputas de custódia de animais domésticos. “Isso impede que esse tipo de indústria se forme”, disse o deputado.

Green disse que apesar das potenciais dores de cabeça, ela é a favor da nova lei. “Eu tenho meu próprio animal doméstico, Rodney King Stone, e ele é tratado como uma criancinha”, disse ela sobre seu cachorro. “Eu não acredito que animais sejam propriedade – eles têm sentimentos”.

Embora a lei de Illinois esteja em vigor há pouco menos de um ano, o advogado de Chicago, Schaffer disse que não viu nenhum terapeuta de animais de estimação ou behavioristas de animais sendo chamados para testemunhar.