Áreas protegidas da Amazônia perdem equivalente a 6 cidades de SP em 30 anos
Áreas protegidas da Amazônia, que deveriam ter “desmatamento zero”, perderam o equivalente a seis cidades de São Paulo em vegetação em três décadas. O espaço corresponde a 953 hectares desmatados em unidades de Conservação (UCs), terras indígenas (TIs) e quilombolas, que deveriam ter sido preservados.

Foto: Marcelo Brandt/G1
Essas áreas, que estão cercadas por territórios ainda mais desmatados, e que não saíram ilesas da exploração humana, são responsáveis pela preservação de mais da metade da floresta. Em 1985, elas representavam 47% da floresta amazônica, hoje representam 53%, segundo um monitoramento de satélite feito pelo projeto Mapbiomas.
A Floresta Nacional (Flona) do Tapajós abriga mais de mil famílias que caçam, plantam e extraem recursos da natureza apenas para sobreviver. Nas imediações, ao lado da unidade de conservação, é feito o cultivo de grãos. A Flona fica na cidade de Belterra. O município registrou 10% de desmatamento na floresta em três décadas. O percentual dentro da unidade, entretanto, foi de 0,1%. As informações são do G1.
A diferença entre as áreas protegidas e os outros locais da região começou a se intensificar nos anos 1970, quando a BR-163 foi inaugurada, em Mato Grosso, pelo governo militar, quase junto da demarcação da Flona do Tapajós, em fevereiro de 1974. Um plano de povoar o Pará era colocado em prática na época. Com isso, muitas famílias foram vive no estado e começaram a formar, com o passar dos anos, pequenas comunidades. Depois, a maior parte das terras desmatadas foi transformada em pastagem que, em seguida, foi substituída por agricultura. Esse ciclo de desmatamento da Amazônia ainda se repete atualmente e boa parte dos vegetais produzidos, especialmente a soja, são plantados para alimentar animais explorados e mortos para consumo humano.

Foto: Rodrigo Sanches/G1
De acordo com a promotora de Justiça Ione Nakamura, que trabalha para regularizar as terras da região, por falta de registro de quem ocupa as áreas, não é fácil encontrar o responsável pelo desmatamento ou qualquer outra exploração irregular da natureza. Se uma área rural é privada e está situada na Amazônia Legal, ela deve respeitar a regra de proteger 80% da floresta.
Para tentar resolver o problema, o governo criou o Cadastro Ambiental Rural (CAR) em 2012. Por meio da ferramenta, que é autodeclaratória, a pessoa diz que é dona da terra e informa dados ambientais, depois faz a confirmação junto ao governo. No entanto, há casos de sobreposição, quando duas ou mais pessoas declaram ser proprietárias da mesma terra. Em 2017, um levantamento do G1 descobriu que mais de 11 mil declarações sobrepostas em terras indígenas foram homologadas no Brasil.
“Ocupa-se a área pública, e é feito o desmatamento como forma para valorizar a terra e vender. Se uma área tem aptidão para agricultura, ela vai valer mais”, diz Tasso Azevedo, coordenador-técnico do Observatório do Clima e coordenador-geral do MapBiomas.
Fora das áreas protegidas, 39,8 milhões de hectares foram perdidos na Amazônia em 30 anos, o que representa 19% de toda a floresta natural não demarcada que existia em 1985. A perda equivale ao tamanho de 262 cidades de São Paulo. Nas áreas protegidas, perdeu-se 0,5%.

Foto: Rodrigo Sanches/G1
Segundo os dados de satélite, todos os biomas brasileiros sofrem e são transformados para servir de área para o agronegócio. Pastagem e agricultura são, hoje, 84% do que se tornou a Amazônia nos últimos 33 anos.
Segundo Caetano Scannavino, que mora na região de Santarém há mais de 30 anos e coordena a ONG Saúde e Alegria, não é possível separar a preservação da natureza da manutenção do regime de chuvas da região e, como consequência, do sucesso das lavouras.
“Se você não tem água, você não tem agricultura”, disse ele, que completou afirmando que é “contra desmatar a floresta para botar soja ou boi”.
Ambientalistas alertam para o risco do percentual de 80% de preservação da floresta em propriedades rurais sofrer alteração. Isso porque um projeto de lei (2.362/2019), apresentado por Flávio Bolsonaro (PSL) e Marcio Bittar (MDB), quer eliminar a obrigatoriedade de manter a reserva legal prevista na Código Florestal, lei 12.651, de 2012.
Para o pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Eduardo Assad, produzir e exportar mais sem aumentar o tamanho do terreno onde está a lavoura é o modelo que vai garantir mais lucro no futuro. Assad defende o uso de terras que já desmatadas e cita um estudo recente do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), apresentado em 2014, chamado o TerraClass, que traz os números de terras que poderiam ser aproveitadas na Amazônia sem destruir mais floresta primária – isso é, que ainda não foi desmatada.

Foto: Marcelo Brandt/G1
“São 17 milhões de hectares desmatados na Amazônia em regeneração. O dado é de 2014, mas de lá para cá piorou. Além disso, são mais 10 milhões de hectares de pastos degradados só no bioma. No Brasil, são 70 milhões de hectares de pastos com baixa produtividade”, disse.
Segundo ele, 87 milhões de hectares podem ser ocupados sem a necessidade de alterar o Código Florestal. O que permitiria, de acordo com o pesquisadora, em uma estimativa conservadora, mais de 240 milhões de toneladas de grãos sem realizar novos desmatamentos.
“A maior biodiversidade do planeta está nas nossas mãos. Então, além de um privilégio, também é uma grande responsabilidade em tempos de mudanças climáticas. A Amazônia gera benefícios globais, mesmo que os custos muitas vezes sejam locais”, concluiu Caetano Scannavino.



















