Por Fátima ChuEcco*

Gatinha não sobreviveu aos maus-tratos | Divulgação
A semana que antecedeu a Páscoa foi um verdadeiro inferno felino no Brasil. Uma gata foi esfolada viva e teve o rabo arrancado em Maceió (Alagoas). Foi encontrada viva na última quinta-feira, véspera da sexta-feira da Paixão, com um corte que se estendia do pescoço à cauda. “Alguém pegou uma faca, arrancou o couro dela e cortou o rabo”, detalha Naíne Teles ao G1 , coordenadora do Projeto Acolher que resgatou a gatinha batizada de Melissa e morreu na noite do último domingo.
Segundo a matéria do G1, a presidente da comissão de Bem-Estar Animal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/AL), Rosana Jambo, acredita que algumas pessoas sabem quem são os assassinos, mas não denunciam por medo de represálias: “Para fazer um crime desse nível com o animal, ele deve ter sido amarrado. Provavelmente o ato não foi feito por uma pessoa sozinha. Um animal que sofre esse nível de dor deve ter gritado muito. É impossível que ninguém escute. Que ninguém saiba”.
Em São Luís do Maranhão, um local conhecido como “Sítio dos Gatos também virou palco de chacina de animais na “Semana Santa”. Na sexta-feira, dia 19, um gato adulto e dois filhotes foram encontrados mortos com lesões por todo o corpo. O pior é que não é a primeira vez que isso acontece naquele local. Há anos gatos vem sendo mortos das formas mais cruéis sem que ninguém seja preso ou punido.
“Há um ritual que ele (autor das mortes) faz questão de continuar. Ele mata os animais e coloca enfileirados. O instrumento que ele utiliza é um pedaço de pau, que fica ensanguentado ao lado. O chão fica ‘banhado’ de sangue”, disse Jô Veras, uma das voluntárias que cuidam dos gatos abandonados ao G1.

Gatos são vítimas de chacina em São Luís, no Maranhão | Divulgação
Animais podem ser torturados em rituais?
Crimes como esses, ocorridos durante a Semana Santa, costumam ser apontados como rituais de seitas religiosas. Recentemente, uma decisão do STF- Supremo Tribunal Federal sobre a constitucionalidade do sacrifício de animais em cultos religiosos, causou muita revolta e, principalmente, pânico e confusão entre os defensores de animais.
Mas a advogada Adriana Cecílio que, inclusive, é uma estudiosa da Constituição brasileira, afirma: “A liberdade religiosa está em nossa Constituição, mas isso não significa que as pessoas estão autorizadas a torturar animais. A mesma Constituição não permite maus-tratos a animais e, portanto, continua sendo crime”.
Ela explica que o STF se baseou na constitucionalidade dos sacrifícios das religiões de matriz africana cujos adeptos conseguiram provar, durante o processo de julgamento de uma lei do Rio Grande do Sul, que não existe crueldade animal nos sacrifícios: “Então todos os demais cultos que sacrificam, por exemplo, cães e gatos, que fazem coisas horríveis com esses animais e os largam nas ruas, não estão contemplados na decisão do STF porque isso não é próprio de religião de matriz africana”.
Psicopatas à solta
Vale ressaltar que não importa a motivação (seja religiosa, vingança ou de outra natureza) de um crime hediondo como esses que têm ocorrido com certa frequência contra cães e gatos. Em todo o Brasil (e também no Exterior) têm surgido casos dos mais perversos, como o noticiado pela ANDA, em primeira mão, de um gatinho que teve olhos perfurados, abdômen aberto, dentes e unhas arrancados. O que importa é o ato em si que revela uma personalidade extremamente perigosa não só para os animais, mas também para as pessoas.

Foto: Divulgação
Estudos do FBI mostram que os psicopatas começam matando animais e, inclusive, a pesquisa vai mais longe, mostrando que é possível detectar um psicopata até mesmo na infância. John Edward Douglas, um dos analistas de crimes perversos do FBI, declarou: “Incêndios propositais e crueldade contra animais são sinais que surgem na infância sinalizando um assassino serial em potencial”.
Aqui mesmo no Brasil, um estudo dirigido pelo Capitão da Polícia Militar Ambiental de São Paulo, Marcelo Robis, prova que a violência doméstica, em muitos lares, tem início com o abuso aos animais. “As pessoas que maltratam animais tendem a causar violência contra outras pessoas. Quem faz mal aos animais provavelmente também vai bater na esposa ou machucar os filhos, porque não tem respeito pela vida. Nos EUA, por exemplo, quando a esposa é agredida, ela pode sair de casa e levar o animal junto, para que ele não fique nas mãos do marido”, comentou o capitão à revista Veja.
Em 2011, foi realizada uma pesquisa com mulheres vítimas de violência doméstica pela Associação Amigos Defensores dos Animais e do Meio Ambiente (AADAMA). Cerca de 71% delas revelaram que seus bichos de estimação também foram ameaçados, agredidos e até mortos pelos companheiros. E na mídia, não raro, também surgem notícias de animais espancados ou mortos por maridos e namorados violentos.
Os psicopatas não são apenas criminosos frios e sádicos. Eles são também covardes. Agridem animais, mulheres, idosos e crianças indefesos ou pessoas em situação que não permita uma reação ao ataque. Essa é a principal característica do psicopata: torturar e matar quem não pode se defender. Por isso é tão importante a Polícia e as autoridades atentarem para os “matadores e torturadores de animais”. Porque neles reside uma personalidade cruel sempre em busca de mais vítimas, sejam animais ou pessoas.
*Fátima ChuEcco é jornalista ambientalista e atuante na causa animal