O que há por trás do recorde de mortes dos golfinhos mais famosos do Brasil
O professor de biologia marinha Pedro Volkmer de Castilho, coordenador do Programa de Monitoramento de Praias da Universidade do Estado de Santa Catarina, anda preocupado com o aumento de mortes de golfinhos (que, na região, eles chamam de “botos”) na cidade de Laguna, em Santa Catarina.

Mas a maior preocupação não é a quantidade de mortes (que chegou a uma dezena no ano passado — o dobro do ano anterior), e sim o que isso pode representar para o futuro da população de botos da cidade.
“A maioria dos botos que apareceram mortos eram indivíduos jovens e isso tende a refletir lá na frente, porque haverá menos adultos naquele grupo para procriar”, explica o professor Volkmer. “Se as mortes fossem de botos adultos eu não me preocuparia tanto, porque eles já teriam cumprido o papel de gerar filhotes. Mas a morte de botos juvenis pode virar um problema bem sério para o grupo dentro de alguns anos, porque faltarão novos adultos para procriar”, diz.
A preocupação maior do professor é com a espécie daquele tipo de golfinhos, a Tursiops truncatus, de inteligência acima da média e que pode passar dos dois metros de comprimento.

O último caso aconteceu na semana passada, quando uma jovem fêmea apareceu morta na Praia do Mar Grosso, vizinha ao canal onde os botos atuam com os pescadores.
A causa da morte do animal ainda está sendo analisada, através de exames em laboratório, mas seu corpo apresentava estranhas manchas na pele, que poderiam indicar contaminação ou infecção causada por poluentes nas águas, já que a lagoa de Laguna recebe os efluentes do rio Tubarão, que, por sua vez, sofre intensamente com atividades industriais e resíduos agrotóxicos da região.
“A poluição causa, no mínimo, a diminuição na imunidade dos botos e os deixam mais vulneráveis a doenças”, explica o professor Volkmer, que acrescenta que “cerca de um quarto dos botos de Laguna já apresentam algum tipo de lesão de pele”.

Embora a poluição seja uma das hipóteses para o número recorde de golfinhos mortos em Laguna no ano passado (foram dez, contra cinco em 2017), é certo que ela não é a principal causa para a mortandade dos adoráveis cetáceos na cidade, mas sim as redes de pesca, que se espalham ao longo da lagoa.
Essas redes causaram, apenas no ano passado, a morte de quatro golfinhos. Os restos de fios de náilon enroscados nas suas caudas não deixavam dúvidas sobre a causa da morte dos animais.
O caso mais chocante do gênero aconteceu tempos atrás, com um boto macho apelidado de “Eletrônico”, já que vivia em constante e intenso movimento. Durante dois anos, ele conviveu com um pedaço de rede entalado na cabeça, o que lhe rendeu um profundo corte na pele e, certamente, muitas dores. “Acho que ele não parava na água porque ficava o tempo todo tentando se livrar daquele sofrimento”, arrisca o fotógrafo Ronaldo Amboni, que também há décadas acompanha os botos de Laguna com suas lentes. “Até que, um dia, ele sumiu daqui. O mais provável é que tenha morrido também”, diz o fotógrafo, que sempre que vê um dos botos da cidade morto se emociona.
As redes são fixadas, muitas vezes, de uma margem a outra da lagoa, não dando chance aos peixes – nem, às vezes, aos botos menos experientes. “Eles são bem menos precavidos que os golfinhos adultos”, lamenta o professor Volkmer. “Às vezes, não conseguem identificar nem driblar as redes e morrem afogados, já que, embora vivam na água, golfinhos respiram o mesmo ar que a gente”, explica.

As redes vêm sendo combatidas pela Polícia Ambiental de Laguna, que, no entanto, não dá conta de todos os casos. Além disso, muitas destas redes são abandonadas dentro d’água e continuam gerando vítimas entre os próprios golfinhos mais jovens, como os que apareceram mortos nos últimos meses na cidade – o que tanto preocupa o professor especializado no assunto.
Os golfinhos de Laguna são os mais famosos do Brasil e a diminuição na sua população preocupa, também, a população local. As imagens dos alegres cetáceos decoram quase tudo na cidade e são uma espécie de símbolo informal, além de terem sido declarados oficialmente como Patrimônio Municipal.
O movimento segue no mesmo sentido das cidades do Cabo Hatteras, no estado americano da Carolina do Norte, onde, no passado, um certo golfinho albino fez história (e virou marca de tudo na região, até hoje) ao guiar, voluntariamente, os barcos que chegavam ao porto através dos perigosos canais.
Fonte: Blog Histórias do Mar / UOL
Fotos: Ronaldo Amboni Fotografia, Unesc e Elvis Palma Fotografia